SONHOS, MORANGOS, ABISMOS E TORMENTAS

É tão difícil ser tanto e ser tão pouco ao mesmo tempo...

SONHOS
Ela fez os planos mais lindos que podia.
Sonhou os seus sonhos com fé e fantasia. Imaginou uma vida maravilhosa pra si. Ela ajeitava os caminhos para serem macios. Ia na estrada, à frente de si mesma, amaciando a terra com seus pés delicados. Com suas mãos sábias ia retirando cuidadosamente os galhos e as pedras do caminho. Andava sempre descalça e nua e por isso às vezes machucava-se ou sangrava. Mas suas cicatrizes eram-lhe motivo de orgulho. Ela era assim. Feliz.
Tinha tudo planejado e uma certeza bem clara dentro do seu coração. Sabia o que queria e fechava os olhos, projetando o seu futuro brilhante. Sim,
ela traçou sua sina imaginária, tecendo fio a fio a teia que a iria envolver em cada passo da estrada.
Escolheu com esmero as melhores escolhas. Fugiu das armadilhas mais pesadas. Caiu em outras. Mesmo tomando todo o cuidado e atenção, escorregava e esfolava-se muitas vezes. Despencava em poços e abismos. Agarrava-se às folhas no precipício. Mas fazia tudo isso por amor.

MORANGOS
Ela tinha a estranha mania de ver morangos à beira do abismo
e de nunca olhar para baixo. Sempre via o lado mais bonito que existe em todas as coisas. Vivia tudo intensamente e sempre tinha um sorriso pra oferecer a quem quer que fosse. Ela acreditava. Afinal, planejou sua vida tão bem e tanto e por tanto tempo.... Nada podia dar errado. Nada!
Mas ela não contava com as ironias do destino. Ingênua, acreditou que a vida lhe seria generosa e nunca pensou que o futuro pudesse ser um grande gozador, revelando-se até mesmo um sádico.

ABISMOS E TORMENTAS
Então, uma a uma, as tormentas foram se aproximando. E gigantescas ondas cobriam-lhe a vida, a estrada, os caminhos.
E tudo o que ela havia preparado pra si, tornava-se inútil, vão, desperdiçado....
E vieram também os furacões com seus ventos arrebatadores e raios ameaçadores. E ela que era frágil, segurava-se em tudo o que podia, mas suas mãos cansadas e doridas soltavam-se deixando-a ser sugada para dentro dos redemoinhos cruéis que a cercavam.
Ela fechava os olhos, implorando pra que aquilo tudo parasse. Não entendia o porquê de tantas coisas sendo jorradas pra fora e além do seu destino. Viu-se soterrada sob mil coisas quebradas, podres, pesadas que amarravam seu corpo e a feriam impiedosamente. Ela sabia que qualquer movimento seria fatal. Respirava aflita, com medo de que tudo despencasse sobre ela. E novas tempestades atingiam-lhe a face descoberta. E nenhuma mão vinha lhe salvar. E nenhuma luz. Nenhum sol. Ninguém a via nessa imensidão de tristeza e incertezas em que a vida a havia metido!
Ela já não sabia onde estava e nem onde estava sua estrada, seu caminho, sua casa. Estava perdida, ferida, soterrada em coisas que nunca havia planejado. Mergulhada em desespero e escuridão. Sem saída que se fizesse conhecer. Sem cordas para galgar as paredes do abismo. Sem abrigo para resguardá-la da fúria dos ventos e da tempestade.
Logo ela que sempre gostou de tempestades! Encarava-as como algo sagrado que mesmo levando algumas coisas embora, mesmo assim, deixavam tudo mais claro e limpo. "Só nas tempestades aparecem os arco-íris" ela dizia. Mas não contava com tamanha fúria!
Precisava sair daquela tormenta sem fim, daquela armadilha. Precisava de um plano novo, de um novo caminho. Sentia-se cega, vulnerável, inútil, fraca. Acreditou tanto em seus sonhos e agora isso! Nada restou deles! Cacos por todo lado!
Como reconstruir sua estrada se ela mesma estava assim tão despedaçada? Como? Como acreditar novamente que fazer planos a levaria a algum lugar bom? Como acreditar que valia a pena retirar as pedras do caminho se ela mesma via seu trabalho perdido em meio a tantos pedaços? Como?
Então deixou de fazer planos. Deixou de sonhar. Abriu um imenso buraco, cavou um enorme precipício dentro de si mesma e ali jogou todos os seus pedaços, seus cacos, seus planos... seus sonhos. Tudo em que acreditou um dia... Agora tudo era um caos. E sua alma rasgava-se em mil retalhos vendo tudo o que era seu ser pouco a pouco arrancado de si. Estava exausta, esgotada. Empurrou tudo pra dentro do abismo.
Fechou os olhos e por um breve momento prometeu a si mesma nunca mais sonhar. Nunca mais traçar caminhos. Nunca mais pés descalços. Nunca mais acreditar na suavidade do destino.

A vida sabe como ferir. Sabe tirar.
O destino testa nossa sina. Nos força ao nosso limite mais impossível.

E O RESTO...
Do fundo de si mesma
, bem ao longe, ela via uma nova manhã nascer.... E o céu se abrir. Mas isso era tão fora do seu alcance... Bem longe do que ela era agora. Longe do seu caminho, num outro mundo até então desconhecido, inalcançável e inatingível pra ela.
E ali, sozinha no fundo do abismo, faltava-lhe uma mão estendida. Talvez quem sabe, a mão do seu próprio destino, disposto a ceder-lhe um novo existir.
E então ela pôs-se a esperar pelas mãos salvadoras. Pela trégua em sua sina....
E chorou. Copiosamente. Desejando que tudo desaparecesse e ela voltasse a ver os morangos suculentos à espera de serem colhidos no abismo de si mesma.

Por Van Luchiari ©
Imagem - Pintura de Isa

14 MIL RECADINHOS:

Nil Brito disse...

É, vc tem razão: é tão difícil ser tanto e ser tão pouco ao mesmo tempo!

bjs absínticos!

Erika disse...

No fundo do poço tem uma mola. Pula nela. sai dai.

Beijo querida

www.oncoto.erikamurari.com.br

Van disse...

::::: NIL
Acho que você também sabe como é isso, né meu amigo? Mas os ventos estão todos a seu favor! Basta abrir as asas....
Beijucas

::::: ERIKA
Amigaaaa, uia que genial isso!
Uma mola!!!!! Como é que "ela" não pensou nisso antes? Deve estar ficando burra, tadinha! hehehe
Adorei a dica! Você como sempre sábia e com um puta astral que nos tira de qualquer poço!
Obrigada amore! Love you! Saudades.
Beijucas

Marcos disse...

Nós só nos desiludimos porque nos iludimos. Não mandamos na vida, apenas podemos ajudá-la a nos ser mais leve.

Marcos disse...

Nós só nos desiludimos porque nos iludimos. Não mandamos na vida, apenas podemos ajudá-la a nos ser mais leve.

DM disse...

Queridíssima, desculpe a ausência não proposital, estava em Porto Alegre, e fiquei sabendo que conheceu a vaca AP, no tal do show do Rio fiquei super feliz! Confetes a parte, espero também te conhecer em um futuro próximo, afinal moramos em SP !

Sobre o belíssimo e irreparável texto. Ele é um retrato dolorido e absolutamente real do que é a vida, poeticamente retratada por você, como sempre !

Mas acho que nossos sonhos são importais, venham as tempestadades, tormentas e abismos que vierem, nossos sonhos morrem com a gente ! E depois de toda tempestade, sempre haverá um período de bonança, simplesmente porque a vida é cíclica !

Beijos e parabéns!!!

Matando saudades !

Paula Calixto disse...

A incerteza delicia, mas esvanece o rumo que se julga sabido.

O bom do bem ou mal é não saber o destino, mas ir trilhando-o! (;

Beijos, flor.

Van disse...

::::: MARCOS
Sábias palavras! Realmente, quando não criamos expectativas tudo fica mais fácil. Mas como deixar de sonhar? Como deixar de traçar planos pro futuro, imaginando fazer aquilo que amamos e pensando que seremos felizes?
Você ainda não me passou a receita!
Quando descobrir, tô esperando....
;)
Beijucas

::::: DM
Linda, que saudades!
Conheci a AP sim! Mas não fica com ciúme não, amore! Quando for em Sampa eu não deixarei de te avisar.

Como sempre, seus comentários são maravilhosos e me fazem um bem danado!
E como sempre você tem razão... "Sonhos não envelhecem..." É depois que as tempestades passam que a gente vê que eles continuam ali, insistentes e imortais!
Amo você, querida! Saudades, sempre!
Beijucas

::::: PAULA
Maçãzinha, querida.... Ir trilhando. Esse é o segredo. Gota a gota. Segundo a segundo... deixar a vida ir acontecendo. E aprender com cada coisa que nos é oferecida!
Vc é sempre certeira.
Beijucas

Gabriel (Sir DoRêgo) disse...

sonhos e manias....são um pouco parecidos...são meio siameses...as vezes se confundem...as vezes temos a mania de sonhar...as vezes sonhamos por mania...por teimosia...sonhos e manias..
saudações.

otimos.blogspot.com disse...

Quem sou eu para dizer isso? Mas a sua sensibilidade é tremenda, seu texto é gostoso como uma jarra de laranjada bem doce e gelada num domingo quente e tão aquecedor como um chocolate quente em tempo de neve.
As expressões me vieram como poesia e filosofia...
Quanto às desilusões, Habermas disse que as angústias é que nos fazem crescer, e eu digo que é nas angústias que tomamos as decisões mais importantes, senão tudo fica inércia...
Como viver como menos angústia? Penso que nasci nu, banguela e careca, e que todo o resto é lucro... quem oerdeu o lucro não perdeu muita coisa, então se eu morrer nu, banguela e careca, valeu a viagem... assim vivo bem, e muito bem...
Gde bj

Antonio Ximenes disse...

Van.

Cheguei atrasado.

Moça.

Morangos... sem dúvida... representam uma constante no erotismo de tua escrita.

Essa tua arte de transformar todo e qualquer sentimento de tristeza ou preocupação em uma vertente erótica... é perfeita.

A alquimia de transformar chumbo em ouro.

Abração pra ti.

inutilia sapiens disse...

uau, que sequência cortante de posts.
emudeci!
lindos!!!
besos.

Leticia disse...

A vida...foi isso que vc retratou.
Quem já não viu seu castelo de sonhos ruir?Infelizmente é comum.
O importante , e mais difícil , é reunir os cacos e tentar reconstruir.
Provável que na próxima tempestade , vc seja mais resistente.Bjks e bom findi.

Mestre Splinter disse...

Deixar de fazer planos não implica em deixar os sonhos à um lado...como continuar, então? Mas são as coisas que tem o seu ritmo, e nós que precisamos acompanhar...não o contrário. Quem prevê o imprevisto...?

...e a mão estendida...bueno, pensaste talvez que, se atravessou e venceu esta fúria, ela pudesse ser esta mão, p'ra alguém que não tivesse a mesma resignação? Escolheu encarar o abismo, e isso não é para muitos...agora só falta ultrapassá-lo...

É isso... um momento p'ra sonhar, mas outro p'ra despertar...chorar, mas lembrar depois das lágrimas, que a é hora de lutar outra vez...por que não há outra opção...

...a não ser permanecer com o pranto, à beira da estrada...

...so sorry, mas nunca aprendi de outro jeito...


...passa lá no blog p'ra conhecer(se já não conhece) o som do Benedictum, banda da Veronica Freeman, uma donzela que arregaça um vocal de meter medo em muito marmanjo ''do mal''...mas com classe e feminilidade... aposto que irás gostar...

 
©2009 VAN FILOSOFIA! | by Van Luchiari