ELA ACORDOU DIFERENTE....

Ela acordou diferente.
No entanto o dia era o mesmo... continuava igual, com o seu sol forte de verão, um céu tão azul - como quase sempre naquela cidade - e o canto de algum pássaro ecoava no seu quintal particular.
Uma cena comum, não fosse a noite que habitava dentro dela e que não despertou junto com o dia.
Sim! Ela acordou diferente. Sem motivos pra acordar. Ela acordou escuridão! Os olhos embaçados sentiam as alfinetadas da luz intrusa que invadia o seu corpo. Esforçou-se para acordar. (Veja! Isso pra ela é algo difícil e exige um certo esforço) As atividades cotidianas não são simples pra quem traz a noite dentro de si.
Não é culpa dela. Ela não nasceu assim. Foi ficando assim... Como uma pedra gasta-se com a água, assim ela também foi se moldando conforme a vida transcorria. Ela que antes era inteira e brilhante foi perdendo dia-a-dia os seus pedaços, a sua luz.
Escovou os dentes, penteou-se, banhou-se... Mas estava diferente. No lugar onde deveria bater seu coração havia um vácuo. Ela sentia-se oca e pesada. Às vezes é assim... O vazio pesa muito mais do que toneladas de correntes. Ela quase podia ouvir o eco, rebatendo-se nas paredes de dentro de si.
Os minutos foram passando e eram mais como horas. E as horas eram tortuosas como uma goteira insistente e ácida corroendo o caminho por onde ela pisava. Descalça. Nua. Oca. Ela vivia. Automaticamente vivia. Involuntariamente vivia. Esquecia-se de si mesma. A memória fraca e apagada embotava os sentidos e os sentimentos. E persistia... Estava tudo diferente.
Ela acordou incompleta. Ela acordou escura. Havia perdido mais uma vez. E essas perdas a aproximavam mais e mais da escuridão. Ela deixou de existir pra alguém. Pra ele. Ele a deixou. Saiu assim sem dizer palavra. E quando se foi, levou com ele todos os sons que existiam. E os sorrisos que eram dela. E tudo o que era novo e fresco que só ele conhecia e trazia pra ela todas as manhãs. Ele era assim. Enchia a vida dela de som e de leveza. E tudo nascia e brotava. E o pomar era farto de frutas exóticas e sabores doces. Quando ele entrou na vida dela, ela sentiu que o dia brilhava. E era fácil acordar. Era bom. Era completo. E havia música por todos os lados. Diariamente. Mas no dia em que ele foi embora, levou junto a luz dos dias. E tudo o que era novo envelheceu e amarelou. Ela já não tinha mais as palavras que ele trazia. E ficou vazia. (E ficar vazia é pior do que ficar só)
No lugar do coração, o buraco. Oco. Cacos espalhados pelo chão do sentimento. E ela que sempre andou descalça acabou se cortando. Tornou-se um remendo. Um arremedo. E silêncio. E noite!
Ela já não acorda como se acordasse. Abrir os olhos é como continuar dormindo. Já não busca. Já não quer. Deixou de acreditar. Deixou de desejar. Seu altar está vazio. E assim como não ficou nada dela dentro dele... Também hoje, não há nada dela dentro dela.
Ela é apenas um eco do que havia sido. Um resquício de si mesma. Perambulando pelos dias como quem escapa da morte por pura teimosia, por pura sorte.
Ela é isso. Um incômodo andante pelos quartos da casa. Escuridão seca. Grito abafado. Mãos atadas. Hoje ela apenas vive. Apenas existe (não pra ele). Nem a sua imagem no espelho lhe traz alguma lembrança do que ela um dia foi. Ela é um resto que ele deixou. Ela só permanece. E sub-vive. Essa foi a herança daquilo que um dia ela achou que tinha outro nome, ou que poderia ser outra coisa melhor e mais bonita. Mas acabou.
Tudo está diferente. Ela acordou diferente. Ele havia levado consigo o que ela era e o que ela poderia ter sido se ele quisesse ser também. Ela acordou diferente. Sem ele, tudo ficou diferente. E foi sempre assim. Tudo se repete. Nada mudou!


Por Van Luchiari ©

12 MIL RECADINHOS:

Zem disse...

Só queria te dizer que você escreve muito bem, parabéns. Mas quanto ao seu último texto, está lindo muito romântico, só vou deixar uma observação! Nossa felicidade só deve depender de nós mesmos!!!
Beijos...
Se quiser me linkar, fique a vontade, farei o mesmo.

Anônimo disse...

De boca aberta...
Te amo!
Depois te conto. rs

Beijos,
Paola.

Edu Grabowski disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Edu Grabowski disse...

Ela dorme. E quando acorda continua dormindo... Acho que ela é sonâmbula!..rsrs

Eii Van. Lindo texto. lindo escrito. Não sei muito essas coisas de crônica, texto, prosa... Escritos em si, Palavras... E como dizia Renato Russo..."palavra é que o coração não pensa..." Não pensa mas aperta e deixa a gente numa situação que mexe com tudo. mas ahhh o cérebro, esa maquina de fazer pensar, de induzir sentir, que quer mostrar, falar e ser ouvido!
A luz incomoda-lhe os olhos.... - ela tem fotofobia!!...rsrs
Esse trecho da música dos titãs diz bem sobre isso..."a luz do sol me incomoa. então deixo as cortinas fechadas..." Engraçado é esse lance de luz, ao mesmo tempo que nos faz ver, enxergar melhor, a luz também pode nos cegar. Luz é bom. na medida certa. Assim como tudo na vida, tudo em demasia, estraga..e não faz bem.

E ela gosta. E ela sente. Mas no lugar do coração tem um vazio. É oco. Ahhh sentimento! Ora bom, ora angustia. Não sei, mas acho que alguém já disse essa frase: "viver é deliciosamente angustiante..." Bom se ninguém disse, coloa aí que pertence a Edu Grabowski!...rsrs

Adoro cada letrinha sua que forma palavra e juntas uma frase e todas as frases lindos textos!
Adoro esse jeito solto, despredindo que voce se expressa. As palavras, podem ficar no som, no papel, ou de forma eletronica, que é esse mundo da tecnologia...mas ela alcança distância que a menta da gente nem sempre é capaz de imagina e por um tempo que não é possível se ter idéia!
Escreva sempre....nem que seja, apenas uma letra!
Beijos linda Van.
Edu.

ps> que nunca seja vã a vossa filosofia!

Kaka disse...

Ai que perfeito! Tinha esquecido de como passar aqui me deixa maravilhada e torna meu dia melhor!

Saudade moça! Te achei por acaso no Orkut de uma Amora fofa!

Um beijo bem grandão!
E já estás linkada no meu novo blog!

Leticia disse...

Ai estou assim hoje , vazia.
Sorvi cada palavra tua , as senti.
Parece que nada aconteceu mesmo...

Paulo R Diesel disse...

O vazio passa e nada nem ninguém justifica tanta melancolia.Os cacos deverão ser recolhidos e remontados pois a vida continua.
Porque sempre querer interagir no texto em vez de dar somente a opinião sobre ele?
Sei lá. É assim que funciona em mim.
Bj.

.linny disse...

tem pouco tempo que estou vindo por aqui e é a coisa mais perfeita que eu visito.

tu ainda vai escrever um livro mulher e eu vou laaa so pra pegar autografo, rs

parabens teu blog é show de bola.
adoro tudo aqui, de verdade!!





verdadeira filosofia :D

Antonio Ximenes disse...

Van.

Quando a gente se sente vazio... andando feito zumbi do trabalho para casa... da casa para o trabalho.

Dormente, catatônico, quieto, vidrado... uma estátua "quase" viva.

Levantando todas as manhãs... como se estivesse imerso em um sonho ruim que não termina.

Isso é "Perigoso".

Pois.

Em se tratando de seres humanos... esse estado emocional pode ser diagnósticado como "o silêncio antes da explosão".

Teu texto retrata magistralmente uma fase... que bem ou mal... todos nós já passamos um dia.

Lindo como sempre.

Abraço forte pra ti.

Gabriel (Sir DoRêgo) disse...

muito boa ....a forma de escrever transapassa um sentimento que muitos não conseguem...e as vezes para levantar a cabeça no dia seguinte é obrigatório passar aqui pelo seu blog...para podermos relembrar o que significa a palavra sentimento...

saudações GarotaVan!

Rui Carlo disse...

van, lindo, denso

benechaves disse...

Oi,amiga: sentindo sua falta! Será que vc também acordou diferente?(rs).

Um beijo vivo...

 
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