O DIA DE ONTEM

E quase ter-te foi assim, eterno.



No Ordinary Love - Sade


Acordou em mim o dia de ontem.
Dia em que estavas tu no meu sonho diário de ser feliz e resistir às rotinas tortuosas que minam meus orgasmos e tornam-me embotada e fria. Dias de manhãs ensopadas de orvalho fresco que tu me trazias antes mesmo do meu despertar para molhar meus seios e meus lábios com umidade e alívio. Músicas que me elevavam e completavam, como se nunca mais fossem me faltar as peças que eu precisava. Porque tu me preenchia os vazios e o silêncio. Porque tu estavas na minha pele com as tuas unhas cravadas nos meus poros. Porque tu me presenteavas os perfumes da vida lá fora, da vida outra que não essa presa nesse espelho afiado.
Acordou em mim o dia de ontem.
Era quando tu existias, vibrante e intenso e despertava comigo as coisas profundas que habitavam nossas madrugadas vazias. Era quando em tudo insistia um acreditar teimoso de que o tempo é mesmo relativo e tudo ao redor poderia ser nosso. E os relógios magicamente rodavam pra trás. E nós nos encontrávamos nesse lapso de tempo-espaço onde existem os sonhos. E existíamos intensamente. E existia uma apaixonada devoção ao destino que nos aproximara tanto e por caminhos tão certos e misteriosos.
Acordou em mim o dia de ontem.
Acalentou minha aflição de ter te perdido sem nunca ter tido. Invadiu o meu sono e adormeceu o meu hoje já anestesiado pelo teu abandono. E silenciou a canção do futuro que imaginei ao teu lado. Aquela voz antiga e doce que me sussurrava êxtases ao encostar os lábios na minha vida, no meu ouvir. Aquele gemido que se projetava na distância incômoda de fios embaralhados e densos que a nossa vontade embora tamanha, não tinha força nem mágica suficiente para transpor.
Depois adormeci.
E ao acordar já era hoje e tu já não existias mais aqui. Adormeceu o dia. Adormeceu a luz que com ele beijava minha pele e fazia-me viva. Adormeceram as tuas mãos que me davam as sensações de ser intensa e gozo e corpo entregue, embevecido e embebido de fluidos, gemidos e suspiros.
Adormeceu em mim o dia de ontem. Virou hoje.

E hoje não há mais nada.




*Foto: Tuta

6 MIL RECADINHOS:

Ricardo Valente disse...

Difícil... muito sofrido o luto. Amanhã, com certeza, se fará hoje. Gostei muito deste post, embora a falta de esperança. A dor dos poderosos... Missing!

Mago Ykhro disse...

Tamanha a imposição da poesia sobre a autora, que dilacera as certezas e nos permite indagar em nossos próprios emaranhados de pretensa segurança:
- "estariam por acaso esses versos, vertidos aqui, desfiando cada teia dos novelos (um a um, de cada nó) guardados no coração do leitor"?
.......
.......

É aguda e precisa a palavra poética, claro e forte o conteúdo, enquanto a autora nos arranca de nós e nos leva pra si própria.
.......
.......

Assim, Van, você nos ajuda a espremer a espinha da imaturidade do querer inconciso. Dessa forma nos faz sonhar que por enquanto apenas nos traduz, mas que, quanto a si própria, você paira soberana - porque teus versos te imortalizam e evitam que seja (você mesma) vulnerável -, para que esteja sempre nos interpretando e ecoando a beleza do amor assim... Tão forte, a ponto de assumir quando dói.
.......
Te amamos!

Nuno de Sousa disse...

Lindo e sensual o teu sonho... um belo adormecer assim vale sempre a pena.
Belo o teu texto amiga.
Bjs enormes em ti deste amigo,
Nuno

Van disse...

RICARDO
A falta de esperança foi ontem. Hoje é cheio de novas possibilidades. ;) Sempre bom te ler por aqui.
Beijucas

MAGO
O que posso dizer diante de tanto carinho? Só posso agradecer, agradecer, agradecer eternamente. E retribuir como posso, com o melhor que tenho a oferecer. Muito obrigada. Fundamental ter-te por perto. Beijucas

NUNO
Melhor que isso é acordar pra viver esses amores que nos consomem. Beijucas querido

Humana disse...

Magnifico texto! Escreves maravilhosamente e desejo que o amanhã te traga sentimentos belos e intensos.
Beijinhos

Van disse...

HUMANA
Muito obrigada querida. Tomara. E desejo o mesmo em dobro pra ti. =)
Beijucas

 
©2009 VAN FILOSOFIA! | by Van Luchiari