IN THE DEEP ©

"Penso 99 vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho no silêncio e a verdade me é revelada." ( Albert Einstein )


In the deep -Bird York


Malabarista de distâncias. Equilibrista de mim mesma.
Mergulho nas minhas profundezas e vejo: debatendo-se no fundo, minha alma acorrentada. Meu coração partido. Minhas mãos distorcidas. Meus pés cansados. Minha boca silenciada... Meu passado fantasmagórico, deliciosamente incomum. Minhas perdas. As pessoas que se foram e que eu amei, intensamente. E os sons que eram meus.
Mais fundo... Mais fundo... Mais fundo...
E meu corpo despedaçado. E meus dedos desfigurados. E minha voz emudecida. E as mentiras me machucando feito sanguessugas, drenando meus desejos a cada latência. E os olhos fechados. Lá bem no fundo. Os sonhos amputados. A adolescência amputada, congelada e frágil. Um movimento e ela se parte. Nada mais é como era.
Atrevo-me... Mais fundo... mergulho... Numa semi-consciência em que tudo em mim adormece. E passam por mim as pessoas, as imagens, as cenas, os erros, os desacertos, as desilusões, os abandonos, os amores, as quedas, os nãos, os medos, as incapacidades, tudo o que eu renunciei para que a vida seguisse sua meta misteriosa.
Mas eu sigo... Além... Além... Mais ao fundo...
E bem lá na minha maior profundeza é que me encontro. Iluminada pelo que resta de mim depois que me dispo da minha vida. Isso que fica sou eu. Nua. Inevitável. Minha escuridão e minha luz, misturadas num caos absoluto e aconchegante. E as respostas dançam em círculos ao meu redor, redemoinhos em espiral, eternamente infinitos. Então era isso! Essa sou eu. Nas minhas profundezas eu me acho denovo. Enfim, estou viva!
E uma voz sussurra: "Volta! Volta que tudo o que te resta é o teu quase-existir na superfície de si mesma. Volta! Deixa guardados aqui a tua escuridão profunda, o teu caos enfurecido, o teu amor amargo, doce, erótico e manso, a tua alma repleta e perfeita. Estará tudo sempre aqui, preparado pro teu próximo mergulho, pro teu próximo encontro consigo mesma. Vai! Emerge. Vê! Há algo além da fronteira do quase-fim de si mesma."
Além da profundeza em que te encontro, pra lá do fio tênue que sustenta o meu amor e a minha existência, existe o possível e o impossível. Existe tudo o que o mundo ressuscita!
Malabarista de mergulhos. Equilibrista de mim mesma. Eu volto pra mim.
Respiro o mundo denovo.
Sou o meu quase.
E o meu segredo (in)confessável jorra do meu corpo, sagrado e novo.
Eu te vi nesse mergulho. Eu te senti nesse porvir. E sigo te vendo. Agora presente.
E o que eu sou se abre por inteiro para receber-te.
Vulnerável. Fortaleza. Complexa. Enigma.
Eis-me.

O silêncio derrama-me teu nome.



*Texto registrado na Biblioteca Nacional.

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11 MIL RECADINHOS:

Osmar Reyex disse...

Nesse horizonte,
no encontro de céu e mar.
sou um vento morno...
Leve e sem consequências.
Um quase nada...

Anônimo disse...

a minha vida
eu a vivo
em círculos crescentes
sobre as coisas
alto no ar
não completarei o último
provavelmente
mesmo assim irei tentar
giro a volta de Deus
a torre das idades
e giro há milênios, tantos
não sei ainda o que sou
falcão
tempestade
ou um grande
um grande canto!

achei bonito e suave
o que vc escreveu. me
fez lembrar desse poema
aí de cima, do Rilke. mas quase
q ao contrário.o poema dele parece mais estranho, mais duro.a espiral nele gira de dentro pra fora, e aki de fora pra dentro. se o poema
dele fosse uma esmeralda, o seu talvez seria uma gota de chuva sobre uma folha nova. não sei se iluminada pela lua ou pela sol. de qq jeito translúcida, bonita.bem bonita.se o dele me lembra a formação de um ciclone ou furacão, o seu me lembra a formação de uma concha, q não vai gritando mas engolindo a dor, que não precisa seguir com a pressa dos ventos. pode ainda esperar muito, muito tempo, pois que envolvida na tepidez e no mistério das águas.

beijos
bonito mesmo
o que vc screveu.
força no seu trabalho.
Clara

Nuno de Sousa disse...

Lindo minha boa amiga que bela viagem em ti, que profundidade sentido nas suas palavras bem sensuais.
Adorei...
Bjs em ti amiga,
Nuno

Van disse...

OSMAR
Que "quase-nada" que nada! És um poeta, meu amigo. Beijucas

CLARA
Mas que belíssimo comentário. E não podia ter citado poeta melhor! Eu sou fã do Rilke. É dos meus poetas preferidos. E a sua análise do meu texto foi riquíssima!!!! Vai ficar reverberando em mim até que, como você mesma disse, eu engula os significados todos. Adorei, querida. Obrigada pelas palavras e pela visita. Beijucas

NUNO
Uma viagem dolorida, mas sem dúvida, compensatória!!!! Eu gosto desses mergulhos em mim e nas coisas. =) Muito obrigada, querido. Beijucas

Ricardo Valente disse...

Sábia assimiladora de perdas. Não reclamar, nem se corroer por dentro. Seguir adiante. É difícil, mas não impossível. Errei e daí?Ainda chego lá! Beijucas (ótimo post, para variar - pensar)

Conde Vlad Drakuléa disse...

Excelente capacidade de profunda auto-análise tu tens! Precisaria de anos de terapia para mergulhar profundamente na minh alma... Esta é a guerra mais cruel, a guerra de nossas sombras contra nossas luzes... Excelente, bravo! Beijocas novas do conde profundamente impressionado com tua capacidade de se comunicar e mostrar teu interior...

;)

Van disse...

RICARDO
E se não for assim, como viver?
Já cantava Guilherme Arantes sabiamente: "Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo mas aprendendo a jogar!" Eu tento. E de tentar em tentar, acabo conseguindo.

CONDE
Primeiro: estava com saudades de você batendo asas por aqui. Segundo: é que eu gosto desses mergulhos profundos... Não tenho medo de me encontrar, não tenho medo da minha sombra. Porque conheço minhas fraquezas e defeitos. E me aceito assim mesmo.
É.... anos e anos de terapia ajudam. =)
Lembra de uma música dos anos 80 (não é da tua época é?) da banda EGOTRIP? (que coisa de véia, hehe)
Olha que letra phodástica (o nome da música é Viagem ao fundo do ego):

"Há um lugar místico em mim
Algo assim, bem escondido
Um planeta inexplorado
Um horizonte perdido
Me embrenhei na mata virgem
Como um nativo zumbi
Mergulhei fundo no oceano
E como Jacques Cousteau parti
Explorador sem experiência
Marinheiro de primeira viagem
Embarquei de peito aberto
Levando só a coragem
Coragem pra enfrentar
Frente a frente eu comigo
Como se enfrenta um irmão
No exército inimigo
Coragem pra encarar
Frente a frente eu no espelho
Como se encontra um irmão
Que lhe nega um conselho

Quase no fim da estrada
Uma voz veio me dizer
Se você quer seguir, cuidado
Não vai gostar do que vai ver
E a volta foi difícil
Retornei de mãos vazias
Nessa minha egotrip
Não fui Davi, nem fui Golias
Explorador sem experiência
Viajante sem bagagem
Perdi tudo o que eu tinha
E o que eu tinha era só coragem.
Coragem pra enfrentar
Frente a frente eu comigo
Como se enfrenta um irmão
No exército inimigo
Coragem pra encarar
Frente a frente eu no espelho
Como se encontra um irmão
Que lhe nega um conselho
"


É isso aí, querido. É preciso ter coragem.
Beijucas de volta! ;)

sifro disse...

bonito, profundo, íntimo, desgarrador.....escrito con los intestinos......estilo Van, el estilo que admiramos... ;)

Carlos disse...

Lembrei-me agora do texto. Mas não lembrava que essa música estava anexa a ele. Obrigado por ter atendido o meu pedido. Você é 10!
Bjs

Van disse...

SIG
Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada! =))))) Adorocê, dear!

CARLOS
You're welcome, baby! Essa música é realmente uma coooooisa! Me toca profundamente.... In the deep mesmo. hehe Beijucas

Gabriel disse...

Enfim estamos vivos...enfim...e até o fim..

 
©2009 VAN FILOSOFIA! | by Van Luchiari