S.O.S. (À DERIVA) ©

"Não há sinal de paz, mas tudo me acalma no teu olhar...."
Carta a alguém bem perto....




Perto de Você - O Teatro Mágico


Oi...
Eu primeiro preciso avisar que não haverá nenhuma lógica nas coisas que vou dizer agora.
Nada talvez faça sentido porque eu mesma perdi o meu. Mas por favor, entenda-me. Tente esquecer por um instante as coisas decifráveis e apenas torne-se imerso nesse meu sentir embaralhado e garatuja. Porque hoje eu sou apenas isso. Um rabisco. Mas eu sei que você entenderá. Porque você me conhece.
Eu só queria te escrever pra dizer das minhas perdas. Pra tentar encontrar nas palavras algum entendimento para essas coisas que a vida nos tira e empurra. Porque você sabe? ...Sempre perdemos algo, mesmo quando parece que é o contrário. E isso me confunde, entende? Por um lado há algo que volta, mas nunca está ou esteve aqui de verdade. E por outro lado algo que é só verdade, certeza, alento e alívio, faz as malas e se despede.
O que fazer com o que sobra de nós depois que nos arrancam tudo? Pele, amor, carne, desejo, vida, veias, pedaços, laços. Como encontrar auto-suficiência de pés e almas e mãos e olhos nessa solidão escura que fica quando sabemos que tudo o que era luz e chão vai estar mais inacessível? Diga-me.
Eu só quero desabafar um pouco, sabe? Por favor, deixe-me jorrar. Eu preciso escorrer essa aflição, essa dor latejada, essa vida anestesiada, essa força contida, reprimida feito lava de vulcão. Deixe-me cuspir esse fogo que me queima por dentro. Porque estou ardendo. Porque estou em carne viva. Estou também chovendo. E essa umidade não ajuda a cicatrizar minhas tantas tempestades. Eu estou à deriva de mim mesma, sem rumo, perdida. Um pedido de socorro sufocado numa garrafa. Então ouça-me. Eu preciso derramar isso, purgar essa incongruência, esse caos.
De você, preciso apenas o silêncio. Por uns momentos breves, esse seu calar tão porto que me dá forças e coragem pra explodir o meu mundo. Porque você sabe... é no silêncio que acontecem as explosões mais intensas. Mas ninguém as vê porque são implosões. Devastam tudo por dentro. Desestruturam. Mas é dessa petrificação que a vida talvez se transforme, toda líquida e frágil e nasça diferente. E você sempre soube ouvir meus silêncios e minhas explosões. Você sempre soube.
Então deixa-me falar das perdas. Do meu melhor amigo que se vai. Do meu melhor amor, que embora nessa aparente volta, continua co-existindo com o medo. Um que se muda. Outro que em nada mudou. Que irônico.
E então dá-se essa latência, essa catatonia, essa paralisia suspensa em mim, no ar... sem saber se se joga no abismo e cria asas ou se finca raízes e desiste dessa coisa de voar. E absolutamente nada do que eu faça pode reverter isso. Porque em algum pedaço do caminho eu perdi a minha mágica. E não posso corrigir nem o tempo, nem a vida, nem o sonho. Nem minhas correntes, nem minhas asas.
Sim. Eu ficarei sozinha. Porque um pedaço de mim, talvez o melhor, está de partida. Juntando as tralhas, as bases, as forças, os sorrisos e as coragens.... pra partir.
O que sobrará será uma sombra do que um dia foi luz, oxigênio, cais, fortaleza e horizonte.
E o que eu farei com essa sobra que eu me tornarei? Sem você pra me tirar da solidão, da loucura, do abismo.
Então entenda. Eu te escrevo como forma derradeira de preservação. Entenda-me. Por favor. Porque eu só tenho você pra me salvar desse afogamento, dessa inundação toda torta e errada. Que farei sem você? E sem ele? E sem ele? E sem mim?
Eu só queria te contar de todas essas coisas que eu inevitavelmente sei que vou perder de alguma forma. Porque estar longe é tantas vezes perder... Perder aquele conforto que era saber você por perto, sabe? E agora você estará fora do alcance das minhas mãos. E eu temo que me esqueça de vez.
Preciso desabar agora que você ainda está aqui, as outras coisas que eu sei que vão me ferir denovo. Feito flor cheia de espinhos. Espinhos que nós sabemos que existem mas mesmo assim agarramos com força, porque não queremos abrir mão da beleza e do perfume das pétalas e não nos importa se sangrarmos. Não importa. Porque quando sangramos sabemos que estamos vivos de alguma forma. E é melhor sangrar do que não sentir nada. Você me entende? Você entende essa dicotomia entre as coisas do sentir e do sofrer?
Eu só queria entender também. Entender esse desequilíbrio que existe entre a minha vida e a dele. E a dele. E esse desencontro irremediável de caminhos antes tão paralelos como os nossos.
Eu só quero você por perto pra que o meu vazio não me mate, não me corroa, não coma o que sobrou de intocado em mim.
Não há um pingo de concordância no que escrevo agora. Até escrever embaralhou-se todo em mim. Eu junto letras, como junto cacos. Porque eu mesma estou assim. Despedaçada. Bagunçada. Porque você se vai. Porque ele voltou. Porque é tudo essa coisa indecifrável e misturada. Sem nitidez.
Por isso eu te escrevo agora, entende? Porque vejo em você o último porto onde me amparar. E porque eu sei que nas suas mãos, os meus pedaços farão sentido. E que só você conseguirá segurar as minhas sobras sem partir-me mais ainda. Porque você também sempre foi um pedaço de mim. Mesmo que daqui a pouco esteja há milhas e milhas daqui. Mesmo assim. Entenda-me como sempre entendeu. Perdoa o meu caos. Mas diga-me: depois que você se for... Será que ainda haverá um resto de mim em mim?


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16 MIL RECADINHOS:

Marko Acosta disse...

Vai uma ilha pra naugraga aí?

Teu disse...

Van,
Quem viraria as costas a um apelo como este? Tão cheio de paixão? Se algum dia eu receber uma carta com tal conteúdo, vou ser obrigado a instituir o meu "Dia do fico". Parabéns pela intuição apaixonada e inebriante. É por isso que eu venho aqui. E Fico! rs

Flavio Ferrari disse...

Van ... que triste.
Ainda que naufrague, não irá se afogar.
Beijo na alma.

Compulsão Diária disse...

AH, mergulhadora de águas e letras, a deriva é condição pra criar, ir e voltar pra sua Ítaca. Ulisses mulher, amarrada ao mastro de um navio sem rota, escuta o canto e se perde porque escolher implica em perdas.
Imperiosa viagem.

João disse...

Estou em silêncio ao seu lado.
Enquanto dormimos sussurro no seu ouvido o que você precisa ouvir.
Te amo!

Osmar Reyex disse...

quebra-cabeça, cubo mágico, brinquedo de montar...
Cada parte tem sua essência.
Pode misturar, embaralhar.
Com calma, desvendamos essa existência.
Com persistência e meu amor dedicado e antropofágico.

Joe_Brazuca disse...

...nós e nossos eixos...
Criamos metas que nos parecem indeléveis, mas, qual nada...
Estabelecemos formas;nos adaptamos a fôrmas;nos espalhamos em arrebaldes inóspitos de nós mesmos, e depois, agora, antes, nos perdemos em nossas mazelas de sonhos perdidos...
E os outros vem e se vão, sem cerimônia porque permitimos, porque precisamos de observa-los, como se fossem nós mesmos...
Suas letras embaralhadas são nossos existires, Van...
Muito...muito bom...pra lá de...
um beijo
Joe

sifro disse...

acudí al SOS.....pasé....y me quedo un rato contigo, a tu lado. O mejor, me quedo hasta que me necesites, hasta que pase la deriva....

Gabriel disse...

desequilibrios as vezes sao obras de um acaso...por vezes necessario...
eu acho

beijo

Anônimo disse...

van,dessa vez vc exagerou.o texto está soberbo.bjo

NiNah disse...

Van, o texto está triste, porém achei lindo. Vejo beleza nas coisas tristes.
Bjo

AC Rangel disse...

Vida. O que pode ser a vida, senão este desabafar, este apelar, este gritar? Que bom que vc está mergulhada na vida, com seus doces e suas cólicas renais. Mas vc sai desta. Sai viva. O menos arranhada possível. O tempo é o Senhor da razão.
Beijo

Daniella Living disse...

Tem hora que a alma quer chorar, mas não pode porque é alma, então o corpo se expressa e sai um texto lindo desses, porém tão triste.

Bjo no coração.

Papagaio Mudo disse...

Oi moça bonita,

e daí que tá triste?
só existe criação nesse sentimento que a palavra não consegue nomear.
Bjs,

>>¨<<

ps: apareça.

rm disse...

Ei Van,
gostei de tudo: texto, música, voz.

(Parabéns! rss)

Danielle Freitas disse...

Profundo!
Lindo texto!

 
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