ELA ACORDOU DIFERENTE ©




Behind Blue Eyes - Limp Bizkit


Parágrafo.
Ela acordou diferente. No entanto o dia era o mesmo. Continuava igual com o sol forte, um céu tão azul - como quase sempre naquela cidade - e o canto de algum pássaro ecoando no vento. Uma cena comum, não fosse a noite que habitava dentro dela e que não despertou junto com o dia.
Sim! Ela acordou diferente. Sem motivos pra acordar. Ela acordou escuridão!
Os olhos embaçados sentiam as alfinetadas da luz intrusa que invadia o seu corpo. Esforçou-se para acordar. (Veja! Isso pra ela é algo difícil e exige um certo esforço. As atividades cotidianas não são simples pra quem traz a noite dentro de si.)
Parênteses.
Não a condene. Não é culpa dela. Ela não nasceu assim. Foi ficando assim... Como uma pedra gasta-se com a água, assim ela também foi se moldando conforme a vida transcorria, dolorida.
Ela que antes era inteira e brilhante foi perdendo dia-a-dia os seus pedaços, a sua luz.
Escovou os dentes, penteou-se, banhou-se... Mas estava diferente. No lugar onde deveria bater seu coração havia um vácuo. Ela sentia-se oca e pesada.
Às vezes é assim... O vazio pesa muito mais do que toneladas de correntes.
Ela quase podia ouvir o eco, rebatendo-se nas paredes de dentro de si.

Parágrafo. Ponto e vírgula.
Os minutos foram passando e eram mais como horas. E as horas eram tortuosas como uma goteira insistente e ácida corroendo o caminho por onde ela pisava. Descalça. Nua. Oca. Ela vivia. Automaticamente vivia. Involuntariamente vivia. Esquecia-se de si mesma.
A memória fraca e apagada embotava os sentidos e os sentimentos. E persistia esse esquecer lento e aflitivo...
Estava tudo diferente. Ela acordou incompleta. Ela acordou escura. Havia perdido mais uma vez. E essas perdas a aproximavam mais e mais da escuridão.
Parágrafo. Silêncio.
Ela deixou de existir pra alguém. Pra ele. Ele a deixou. Saiu assim sem dizer palavra. E quando se foi, levou com ele todos os sons que existiam. E os sorrisos que eram dela. E tudo o que era novo e fresco que só ele conhecia e trazia pra ela todas as manhãs.
Ele era assim. Enchia a vida dela de som e de leveza. E tudo nascia e brotava. E o pomar era farto de frutas exóticas e sabores doces.
Quando ele entrou na vida dela, ela sentiu que o dia brilhava. E era fácil acordar. Era bom. Era completo. E havia música por todos os lados. Diariamente. Mas no dia em que ele foi embora, levou junto a luz dos dias. E tudo o que era novo envelheceu e amarelou. Ela já não tinha mais as palavras que ele trazia. E ficou vazia.
E ficar vazia é pior do que ficar só
.
No lugar do coração, o buraco. Oco. Cacos espalhados pelo chão do sentimento.
E ela que sempre andou descalça acabou se cortando. Tornou-se um remendo. Um arremedo. Silêncio. E noite!
Parágrafo. Reticências.
Ela já não acorda como se acordasse. Abrir os olhos é como continuar dormindo. Já não busca. Já não quer. Deixou de acreditar. Deixou de desejar. Seu altar está vazio.
E assim como não ficou nada dela dentro dele... Também hoje, não há nada dela dentro dela. Tornou-se apenas um eco do que havia sido. Um resquício de si mesma. Perambulando pelos dias como quem escapa da morte por pura teimosia, por pura sorte.
Ela é isso. Um incômodo andante pelos quartos da casa. Escuridão seca. Grito abafado. Mãos atadas. Apenas vive. Apenas existe. "Não pra ele" - ela pensa.
E não pra si. Nem mais isso.
Nem a sua imagem no espelho lhe traz alguma lembrança do que ela um dia foi. Ela é um resto que ele deixou. Ela só permanece. E sub-vive. Essa foi a herança daquilo que um dia ela achou que tinha outro nome, ou que poderia ser outra coisa melhor e mais bonita. Mas acabou.
Tudo está diferente. Ela acordou diferente. Ele havia levado consigo o que ela era e o que ela poderia ter sido se ele quisesse ser também.
Parágrafo.
Ela acordou diferente. Sem ele, tudo ficou diferente. E foi sempre assim. Tudo se repete.
Nada mudou! Nada mudou!

Ponto Final.

Van Luchiari ©
*Texto registrado na Biblioteca Nacional.
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10 MIL RECADINHOS:

Cöllyßry disse...

Texto muito interessante, como o espaço...

Beijitos

ela disse...

... que ela talvez sempre tenha sido assim, sem ele, sozinha , oca e vazia, se entretendo com pormenores. hoje um sol, amanhã um som, um animal, e certo dia fôra ele. talvez ele nunca tenha sido realmente mais do que o mesmo nada que a habita, desde o tempo em que as chávenas cheiravam a cevada e havia chocolates em forma de guarda-chuva... não foi ele que partiu, que ela há muito se partira, em fogos vários apartada da vida que pulsa... ele sempre existiu para ele, ela tão pouco para si mesma. ela é escrava de desovar, largando a pele que a prende e embrulha as asas... mas ela sempre resiste. dantes sozinha, em absoluto, mas hoje tem ELE que ele é mais real que ela e ele jamais juntos! ela hoje acordou diferente, não de si, mas diferente do jeito que queria ter acordado. a sensação é-lhe demasiado familiar e tem nome de doença. uma poesia tétrica que a música embala e o sono entumesce! ele será o que foi e é. um sonho vestido de brancura e simpatia.

um abraço

ela disse...

http://www.youtube.com/watch?v=3U0-IiofHcE&eurl=http%3A%2F%2F0573catorze%2Ewordpress%2Ecom%2Fcategory%2Fjames%2Dblunt%2F&feature=player_embedded


ela brilha!

Cristiano Melo disse...

Van,
Sua prosa é rica, densa, dolorida e demasiadamente humana. Há passagens no texto que não há como não se identificar com a narrativa.
Nada muda, mas se transforma, nem que seja o molde da pedra no vazio, deixado pela correnteza da vida.
bjos

João disse...

Am i missin somethin?
Call me, skype me, twitter me, something me.
Saudades (em mil anos não vou dizer isso em inglês).
Te amo (nem isso, bem, talvez, de vez em quando).
Beijo eterno

Mago Ykhro disse...

Enquanto isso, no Allegiance-Esconderijo onde reina o cloud-burst-of-Thunder...
...Quando tentam abrir um túnel sobre a luz que nós víamos, é aí que enxergamos que o brilho não aparece apenas no final – mas o carregamos conosco, e isso é o que nos guia afinal...!
Vejo aqui apenas reticentes vírgulas do destino.

Joe_Brazuca disse...

Dark...pra lá de...

sobrevivemos todos ao holocausto de nós mesmos...

bj

Quentin Frangini disse...

É impressionate eu ter me deparado com seu talento apenas agora..Tá de parabéns, você é foda!! Continue com o bom trabalho, acabou de ganhar um fã, mon petit.

Gabriel disse...

Quando acordamos diferente os dias nunca são iguais...nunca são os mesmos...penso..
beijo

Sara disse...

Você tem um talento inato! Nunca deixe de escrever para eu nunca deixar de ler as suas palavras

 
©2009 VAN FILOSOFIA! | by Van Luchiari