TODA NUDEZ ©

Sou nua. O que me veste me revela. ©


Um Girassol da Cor do seu Cabelo (Márcio Borges/Lô Borges) - Nenhum de Nós


Há dias em que eu me visto com as roupas do SOL.
São dias de sono e de poucas atitudes. Nesses dias o café tem o cheiro forte e o ar é seco e impregnante. Mas as cores são fortes e a luz é muita. Nesses dias de sol os meus olhos doem e a preguiça me domina sem culpa. Tem sempre um ventilador ligado. Ar instantâneo, morno. E tem uma rede. E tem um livro. E tem banhos compridos e corpo despido. Alma despida.
Nesses dias tudo é quente. E dentro de mim tudo é quente também.

Há dias em que eu me visto com as roupas da NOITE.
E são dias inteiros de beijos e línguas e bebidas exóticas. E há música o tempo todo. Música sensual que provoca o corpo. Nesses dias eu seduzo, eu me embelezo. E fico vaidosa como se esperasse por alguém. Nos dias de NOITE eu mostro tudo o que há em mim, todas as minhas fases. E me expando. E me recolho. E escorro e me abro inteira. E me lambuzo. E me umedeço. E me arrumo. E me perfumo.
Nesses dias eu canto e a minha voz é imensa e me redime. E eu me curo completamente.

Há dias em que eu me visto com as roupas da GULA.
Nesses dias eu devoro tudo! Tudo é comestível. As pessoas que eu vejo, as ideias, os desejos, a rua, os dedos. Nesse dia eu me sinto satisfeita. Cheia de conteúdo e conhecimento das coisas. Eu sinto fome. Eu como. Eu saboreio. E guardo na memória um bom suprimento de paladares para que não me falte fome nos dias de caverna, de urso hibernando.
Nesses dias eu amo, eu trepo, eu provo um pouco de tudo o que há nas coisas todas e bebo com prazer na taça da vida.

Há dias em que me visto com as roupas do TEMPO.
Nesses dias eu apenas observo, soberana, as coisas que me cercam. Vejo de cima! Estou no alto e de lá tudo é nítido e é tudo resposta. Um saber-de-tudo me é concedido. E eu então me reconheço imortal. E me vejo coragem diante do abismo.
E salto!
Há dias em que me visto com as roupas do FIM.
Essa estrada misteriosa que ninguém conhece ou sabe onde vai dar. Nesses dias eu escrevo. Porque é o único jeito de não acabar, de não desaparecer. Essa roupa é uma roupa difícil. Ela é determinada pelo tic-tac constante do universo. Com essa roupa eu me visto de luta e rebelde que sou, eu espero.
Nesses dias de FIM eu recomeço tudo o que posso e quero.

Há dias em que eu me DISPO de todas as roupas possíveis.
E minha alma nua diante de ti finalmente se revela como realmente é. Completa!
Uma soma de todas as coisas: SOL, NOITE, GULA, TEMPO e FIM!


Van Luchiari ©
*Texto registrado na Biblioteca Nacional.
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8 MIL RECADINHOS:

Cora disse...

Texto iluminado e pulsante... completo.

Hélio Jorge Cordeiro disse...

A verdadeira veste da alma: o ser.

Texto simplemsente direto, revestido de força interior, sem dúvida.

bxinhos

Troll disse...

Para todos os dias, como para cada momento, quantas máscaras mais não guardamos, todos?

Van disse...

CORA
Obrigada querida. Venha sempre. Seja bem-vinda. ;)

HÉLIO
A alma. Tem veste melhor??? A nudez, a pele... Isso sim me veste e me cobre. Delícia de comentário, querido. Beijucas e obrigada.

TROLL
Máscaras, sorrisos, personas, acessórios, roupas... Temos tantas quanto a vida nos pede. No fim, viver vai sendo esse imenso camarim. É necessário. Pura sobrevivência. Adorei que comentou. Beijucas querido.

Mago Ykhro disse...

When clouds seem clothes, don’t refuse to be nude.
Translation: “Um banho de chuva talha a roupa e insinua quão bela é a nudez”.
.............
P.S.: É nisso que dá ser beijado pela familiaridade da tua poesia.

Marko Acosta disse...

Existem 2 tipos d textos poéticos:

Os Clássicos
(no bom sentido Aqueles q, ENTRE OUTRAS COISAS - por vezes dentro d uma Nobre banalidade q poucos assumem e/ou enxergam - conseguem d 1 maneira ou outra dizer o q é comum à todo gênero humano d maneira original) e os não Clássicos

Este seu texto pra mim é um Clássico d nascença

Existem 2 tipos d textos Clássico:

Aqueles conhecidos, mesmo parcialmente, por um grande nr. d pessoas d 1 ou várias gerações e aqueles cuja boa parte da humanidade não teve o privilégio d conhecer.

Independente d qual tipo d poema Clássico este seu texto venha à se enquadrar, pra mim já é daqueles imprescindíveis.

Leticia disse...

Não é curioso que a ausência(nudez) exista uma miscelânia de tudo?!

Adoro essas brincadeiras do caos.
Sempre incomentável de tão perfeita Van ...aceno concordando aqui.

Saudade.

Van disse...

MAGO
Teu comentário é sem comentários! Vc sempre me deixa assim, sem palavras. Beijucas

MARKO
Gosto de ser assim. Clássica e imprescindível. Vez em quando é bom. ;) Beijucas


Aaaaaaaaahhh! Saudadeeees, muié! Por onde andava? =) Que bom te ver por aqui denovo. Beijucas

 
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