IT'S JUST ANOTHER DAY©

Ser-me, vez em quando, é toda essa solidão.


Ao longe o mar - Madredeus


Estou cansada.
Cansada de escrever apenas com as minhas palavras limitadas, pobres, vãs.
Estou cansada desse tempo seco que me faz respirar mal e que me sangra diariamente. De dormir pouco ou quase não dormir e acordar em dias ofuscantes. Luz demais fere. Sol demais mata. Todo excesso, mesmo o de luz, é prejudicial.
Estou cansada de ter essa pele, essa forma, esse cabelo, essas mãos... E esses olhos e essa boca e esse tudo.
De pisar em terrenos traiçoeiros. E afundar em promessas-movediças.
De ser sempre antes, sempre depois, nunca agora.
De ser pouca, ser rasa, de ter medo, de ser tão longe, de ser tão eu.
Cansei de desejar tanto, de tanto querer.
Enjoei das minhas cavernas, das minhas crisálidas, dos meus abismos, das minhas fases, da minha cara no espelho. Minha cama já não me acalenta. Minhas noites não me renovam. Estou cansada de acordar antes de ter dormido. E de existir sempre com esse gosto de incompletude na boca.
E a melancolia lá fora. E a melancolia aqui dentro.
E eu nessa sina de me dar, me entregar, me abrir, me fechar, me ferir.
Cansei da minha intensidade.
Cansei das mentiras que me contam. Das loucuras que me despejam. De querer, de fazer, de buscar, de ter que sempre dizer sim e ouvir não.

Cansei de esperar pela chuva, pelas tempestades, pelo cheiro da grama molhada. De esperar o beija-flor invadir minha janela.
E de não ter retorno, de não ter fim. Ou de findar.
Cansei do barulho matinal, da sujeira no quintal, de ser tão normal...
Dessas esfinges diárias que eu tenho que decifrar.
Da minha falta de força, de coragem... da falta de troca, do excesso de cuidado...
De sobrar assim tanto amor em mim...
Cansei. De não ter algumas coisas e de ter outras transbordando em exageros.
De ver as coisas com os meus olhos velhos e embaçados. De deixar rastros e pegadas pra que alguém encontre o caminho até mim. Tudo em vão. Ninguém vê. Ninguém vê. Ninguém lê.

Estou cansada de ser eu. Assim tão nada, tão dentro.
De não ter vento. De existir nesse tempo.

Arranquem-me de mim.
Apaguem-me.



Van Luchiari ©
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4 MIL RECADINHOS:

Daniela Slindvain disse...

Van,

Uau! Temos uma sintonia, que julgo especial. Nos dias que estou me sentindo um “ser” fora dessa realidade louca... você escreve um texto que exprime exatamente o que sinto. E entre lágrimas eu li cada palavra... e já não me sinto irreal. Não sei se me fiz entender – creio que não... Mas saiba que estou bem, agora, eu estou bem.

Obrigada, Van!
Um beijo doce.
Dani

Troll disse...

Há muito no que se perder, caríssima, e essa sensação de ser carregado pela corrente por vezes nos assola.

Mas nessas horas, prefiro contemplar que amanhã tem um universo de possibilidades, tão perto.

rm disse...

Eu leio!

rss

Jester disse...

Cansei do barulho matinal, da sujeira no quintal, de ser tão normal...

Mas você é sensacional... Cheia de coisas lindas.
Beijucas!

 
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