BREATHING (Message in a bottle) ©

Inspire!



Untitled#Its - Sigur Rós
Eu me perdi.

Em algum lugar dentro do espaço descomunal que existe de uma ponta a outra da minha alma. Perdi o rumo. Desmemoriei os caminhos.
É tão longa a estrada. Tão cheia de truques, ilusões, irrealidades, espelhos distorcidos. Debato-me nesse imenso vazio que me sobra e inunda quando eu fecho os olhos.
Não há janelas dentro de mim que tragam pra dentro a luz que eu sei que existe lá fora.
Eu sei. Está fora do meu alcance por ora. Meu caminho é inverso. Disperso entre o que eu fui e o que eu me tornei. Consumi-me lentamente num inevitável e pesado desaparecer.
Eu me perdi.
Estico os desejos e os pensamentos como escapatórias mágicas. Nenhum lugar é seguro dentro de mim. Eu não posso simplesmente sair. No entanto pulso insistentemente o que há de vida lá fora. Aprisionada nesse corpo que não encontra saídas, que não escorre pelos vidros quebrados dos quadros nas paredes. Que transforma os próprios dedos em inutilidades imprestáveis. Quebra os espaços restantes entre os mistérios e as respostas.
Eu me perdi.
Nada mais conheço do que um dia eu soube ser eu. Nada mais sei. Desaprendi-me. Vejo uma máscara de feições confusas tentando formar um rosto. Um pé, um fogo, um estalo, um sorriso, um engano, uma pegada, uma foto, uma sensação, uma canção... Tudo passa pelas minhas veias. Menos o fio que me libertará dessa catatonia. Eu vago por este lugar que eu chamo de mim.
E as correntes que eu mesma criei gemem o grito que se forma: Let me out! Let me out!
Eu ali. Uma pausa nas coisas. Expectadora de mim. Perdida. Refém das minhas próprias armadilhas, das minhas próprias teias. Dos meus medos. Alma paralítica, desfalecida e nua. Suplicando suas metamorfoses, seus voos.
Eu me perdi.
E o silêncio delatando meu pedido de socorro. Vagando no mar alto da minha alma em fúria, eis a garrafa. Eis o bilhete: Let me out! Let me out!
Tão vasta é a imensidão que vai de uma ponta a outra da minha alma que talvez eu nunca mais me encontre.

Ou talvez alguém encontre a mim com um amor assim inverso: Let me in! Let me in!


*Texto registrado na Biblioteca Nacional.
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BREATHING © by Van Luchiari is licensed under a
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Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License

17 MIL RECADINHOS:

Felipe A. Carriço disse...

Somos mensagens que flutuam em garrafas perdidas num mar de pessoas.

Gostei muito.

@carrico

giselle disse...

Nem sei se a garrafa no mar
Nem sei se a mensagem a vagar
Nem sei se você de-vagar
Nem sei se eu a te encontrar
Só seu que um dia
Hei de me achar!

Sentidos à flor da pele, alma em carne viva tuas letras, Van Luchiari

Me perdi em ti...let me in!

Beijos,

Giselle Zamboni

POETA E/OU LOUCO disse...

EvohÉros, Van!

Duas coisas relacionadas:

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"Drowning Swimmer’s Dream" (Author: unknown)

Who art thou?, asked the guardian of the night.

From crystal purity I come, was my reply,
And great my thirst, Persephone.

Yet heeding thy decree, I take to flight,
And turn, and turn again, forever right.

I spurn the pallid cypress tree,
Seek no refreshment at its sylvan spring,

But hasten on towards the rustling river-
Of Namozine, wherein I drink to sweet satiety.

And there, dipping my palms between
The knots and loopings of its mazy stream,

I see again, as in a drowning swimmer's dream,
All the strange sights I ever saw,

And even stranger sights no man has ever seen.

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http://naofiquesao.blogspot.com/2006/01/entende.html

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Beijabraços textuais
Aleph Davis

Revista disse...

Repirei e inspirei cada palavra sua. Texto belíssimo. Não comento mais para não estragar. :)

@anagrana_ disse...

Van, você me impressionou!!

Descreve, escreve, articula minha mente a reflexão. Sentimentos profundos, que muitos sentem, porém os que escrevem assim são raros!
Talento raro, sentimento que chega a tocar minha alma, letras brilhantes, isto foi um presente para mim!!

Obrigada Van, beijos :)

Ivan disse...

Reconheci-me nas tuas palavras, embora eu mesmo não me reconheça. Eu sou esse que não se reconhece mais. "Nada mais conheço do que um dia eu soube ser eu". Também sou esse que "consumiu-se lentamente num inevitável e pesado desaparcer". Onde estã para EU seja o que grita: "LET ME IN". Onde está para que eu implore que me permita reencontrar-me, talvez em você. Quem é você afinal, que parece ser eu?

Emanuella disse...

Acho que vivemos, quase sempre, nesse sentimento de que estamos perdidos. Às vezes parece tão difícil se encontrar. E é quando estamos no 'fundo do poço' que vem a força pra se reerguer. Teu texto já disse tudo.
Combinação maravilhosa de foto, música, texto e imagens que passaram em minha mente.
Sou tua fã.

Talita Prates disse...

Visceral!
Belíssimo texto, Van.
Sorte com o let me in...

Bjo grande, querida.

Talita,
História da minha alma.

Carmen Eugenio disse...

Na verdade trata-se da tradução de nossas travessias que, você, adorável estrela brilhante, sabe tão bem nos brindar!!!

Fernando Ramos disse...

Excelente sacada da garrafa, viu, Vanzinha. E como sempre, musical, entoando um "Eu me perdi" ou "Let me out" como em um refrão.

Quanto mais leio você, flavinha ou Adriana vejo que jamais conseguirei escrever de alma, como fazem vocês, como fazia Lispector.

Parabéns mais uma vez, Vanzinha!

P.S.: nunca mais apareceu na Coluna ou mesmo deu as caras na Escrita Salaz. Faça-o! Hehehehe.

Teena in Toronto disse...

Happy blogoversary :)

Diogo C. Scooby disse...

Você coloca sua dor no papel virtual e o máximo que eu consigo fazer com a minha é transformar em um cãncer lento.
Te admiro muito Van.
Sinto a dor de ser eu também, e não consigo me fazer entender como fazes.

Léo Santos disse...

Parabéns! Muito bonito o que escreves! Teu coração está aí guria, nessas letras, aí é que tu te encontras!

Um abraço!

Mile Corrêa disse...

Nossa!
Como você consegue isso, menina?
Adoreii!
Tem tanto sentimento!
"Nenhum lugar é seguro dentro de mim".
Beijo

Evandro Gomes disse...

Van
O texto afaga, dilacera, inspira,
transpira. Tuas dores afagam minhas dores. Mas a sensibilidade que levas no coração preenche nossos vazios. É Luz e Cor.
Arco-íris que se estende além de 140 teclas.
Van, tua alma é vasta. Mais vasta do que ousou minha imaginação.

Beijo

Evandro

Anônimo disse...
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Adão Flehr disse...

Van,

Pois que ainda há sincronicidade!!! Tuas letras me cortaram como retas obliquas em alguns momentos.

Saudades muitas.

Beijos,

 
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