ELOQUÊNCIA ©

Fica aqui, dentro desse amor que não morre, não morre, não morre.


Stand Inside your Love - Smashing Pumpkins


- Oi. Como estás?


(Aos pedaços. É uma confusão, sabe? Eu quero dizer-te que gostaria de ter, apenas por um instante, esses teus olhos que me vêem assim tão diferente do que eu sei que sou por dentro. Ou não sei. Ou não tenho.
Porque eu sou só esse meu abismo buscando asas. Apenas essa fresta escancarada na pele... ferida aberta que não sara. Essa coisa em metamorfose. E essa vontade de enfiar-me numa cápsula e perder-me desse tempo que não me entende e me corrói. Me corrói, entende?

Queria dizer-te dessa imensidão mascarada que eu trago escondida sob esse véu melancólico. Dizer-te que sou profunda, mas de uma profundeza intragável, asfixiante.
Sou submersa. E não sei se um dia chegarei à superfície de mim. E assim me faço porque o silêncio me habita e sem ele eu não existo.
Acostumei-me a ser essa solidão disfarçada de alegria. Vulnerabilidade vestida de fortaleza.
Também preciso contar-te como é tão melhor o meu dia quando acordo longe de mim. Ou quando bebo café fresco ou saboreio morangos ou descubro uma música. E como me sinto viva quando deixo-me molhar pela chuva ou quando atravesso os minutos sem que nada me machuque, nem eu mesma. E como eu gosto quando não há espinhos nas coisas, nas pessoas, na vida. E dos pequenos prazeres que eu tenho nessas coisinhas diárias que cabem todas tão imensas nas minhas mãos. Entende?
Eu queria que tu soubesses dessa blindagem que eu carrego em mim. Dessa capa que me protege e envolve corpo, alma, palavras, tudo. Essa casca impenetrável com jeito invencível, mas que por dentro chora e se desmancha.
É... eu queria mesmo dizer-te que essa que você vê daí da altura dos teus olhos, é, no fundo, uma finitude. Uma substância etérea prestes a diluir-se e ser esquecida, porque nada mais é do que um mero desvio de si mesma.
Mas... no fundo eu também queria pedir-te, voraz, com todo o meu silêncio: não te desvies de mim.
)


- Estou bem, obrigada.


Van Luchiari ©
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*Quadro: Gustav Klimt (Death and Life)

26 MIL RECADINHOS:

guinnnnn disse...

tentando achar palavras para descrever quanto eu amei isso

Kassatti disse...

O problema com as blindagens é sempre se certificar de que a fechadura está do lado de dentro. Gostei muito do texto. Sou fã das mensagens subliminares. Tem que prestar atenção nos olhos, nos pequenos gestos : )

Kassatti disse...

O problema com as blindagens é sempre se certificar de que a fechadura está do lado de dentro. Gostei muito do texto. Sou fã das mensagens subliminares. Tem que prestar atenção nos olhos, nos pequenos gestos : )

Marii disse...

Fala de você, mas serve para minha falar de mim também...

A Moni. disse...

Sempre lindo, sempre tão em carne viva... sempre tão...de tantos!

E quantos de nós não anda assim, de máscara?
Quem esconde os nossos verdadeiros rostos?
Háverá direito?

Um beijo, Van!

Tays Rocha disse...

É mais ou menos assim que me sinto, quando às vezes ouço essa pergunta de quem já sabe a resposta e eu por saber que a pergunta é mera formalidade, respondo também o negrito... Beijos querida e boa semana.

Daniela Figueiredo disse...

"Sou profunda"... "Asfixiante", acho que sou assim também. Insatisfeita, sempre em busca de mais, como se o agora não me contentasse. Ser enlouquente tem seu lado positivo, é melhor que ser apagada. Embora o extrapolar emoções, viver e inspirar o momento, desgaste, mas é assim que nos mantemos vivos! Algum aprendizado tiramos disso, pode acreditar.
Bjs, Van!

Ana Marques disse...

Van,

Fala a verdade: você copiou meu interior e traduziu em poesia?

Linda, estou sem palavras porque estão todas aqui.

Pra fechar: estou bem também. ;)

Beijo

Ana Marques

http://escritoserabiscos.blogspot.com
http://falopios.blogpost.com (O meu texto da semana chama-se "A Louca")

Mariana Gouveia disse...

ei,eu li você.Que bom que está bem.
Eu,aqui,dentro do vasto tempo descobri que os sentimentos se multiplicam,é tudo igual,tal mãe que só muda de endereço,sabe?É.Porque essa metamorfose vagueia por aqui também.Faz morada,asfixia.E esse negócio de submergir,quando dei por mim,a beirada do lago está ao alcance da mão,mas eu não vi.
Mas devo te contar ums egredo:entre os espeinhos das coisas há leve toque de seda.Se souber tocar,não machuca.

Cada vez mais fã de ti,menina...Espelaho tuas palavras por aí e absorvo,porque na verdade eu sinto que você fala tudo que eu queria gritar,mas minha voz ab(surda/muda)se nega a pronunciar.
Beijos

Fernando Amaral disse...

Tem segundos que são assim mesmo. São mais longos que os outros...

Fernando Lago disse...

Muito belas palavras, Van!

A Van (nada vã) filosofia!

Abraços!

(Fernando)

Manuel Pintor disse...

Tudo está na eloquência do silêncio
que escorre entre(as)linhas.
Os pedaços da metamorfose que somos
vagueando confusos submersos abismos
ancorando asas em ténues pontos de luz.
As frestas na pele, rombos na blindagem,
rebordos que sangram os espinhos
de tudo quanto se gosta
e nos atravessa os minutos,
a vida, o corpo, a alma,
por onde se nos escapa a solidão
e a finitude.
Por aí nos penetramos fundo,
eu e tu, espelhos um do outro,
para além das máscaras,
no que o silêncio de mim
nos teus olhos se alcança.
Lê-o, sem desvios.
Estou bem!

Que eloquente é a essa revelação do silêncio, vulnerável fortaleza, Van!

Troll disse...

E quanto mais não fica por ser dito ou pensado, simplesmente pq a mente, assim, não se permite ir tão longe?

Gil. disse...

Oi!

Eu tb passo por esses momentos, uma vontade de, às vezes, me enfiar dentro de uma cápsula, como vc msm disse, e lá ficar por dias... Entretanto, penso que essa seja apenas uma parte de nós compreendida em um grande Mosaico. E dentro deste, há partes das mais variadas: obscuras, neutras, coloridas, mas todas maravilhosas e essenciais à vida. Há um poema do Ferreira Gullar, do qual gosto mt. Será que vc o conhece? Acredito q sim. Deixo-o aqui pra vc:

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?


Beijos meus!

Gil :)

Ps.: Eu vou bem, obrigada! rs

Gil. disse...

Oi!

Eu tb passo por esses momentos, uma vontade de, às vezes, me enfiar dentro de uma cápsula, como vc msm disse, e lá ficar por dias... Entretanto, penso que essa seja apenas uma parte de nós compreendida em um grande Mosaico. E dentro deste, há partes das mais variadas: obscuras, neutras, coloridas, mas todas maravilhosas e essenciais à vida. Há um poema do Ferreira Gullar, do qual gosto mt. Será que vc o conhece? Acredito q sim. Deixo-o aqui pra vc:

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?


Beijos meus!

Gil :)

Ps.: Eu vou bem, obrigada! rs

Jefferson disse...

Trazes na ponta do lápis a voz da alma de muitos que gritam em silêncio por não encontrar palavras que expressem seus sentimentos.
Que poder, tens de traduzir o que a alma quer dizer, mas não consegue. A limitação que oprime e silencia a alma, acha o seu escape, a ponta de teu lápis.

Parabéns!
Como sempre, simplesmente sensacional!

Vou bem, obrigado.

EAD/JOYCE disse...

Simplesmente comovente, de partir o coração.bjs

Juca Ajamil disse...

Algumas pessoas se identificam com seus textos, outras se emocionam, se inebriam. Eu? Sinto de tudo um pouco, mas como —modéstia à parte— nasci pra pensar, refletir e enxergar além do horizonte, não posso deixar de perceber um outro motivo em suas palavras.

Como é bom quando alguém nos pergunta como estamos e podemos responder sem rodeios e sem medo do que o outro irá pensar. Porque às vezes isso é tudo que queremos, alguém que nos ouça calado e nos entenda e aceite como somos, felizes, tristes... imperfeitos.

Melhor ainda é quando, por qualquer que seja o motivo que nos faça calar ou esconder o que sentimos ao responder como estamos, nossos pais, amigos e amores são capazes de ouvir o que dizem nossos olhos. E nos abraçam, nos confortam e nos encorajam a nos despir dessa armadura que por vezes insistimos vestir. Contar com pessoas assim nos ajuda a superar qualquer coisa.

Um beijo e parabéns por outro excelente texto. :)

Lidiene disse...

Adorei! Fascinante!

Felipe A. Carriço disse...

Por mais que sejamos fortaleza, no peito de todos nós mora um Cavalo de Tróia, chamado coração.

Vanessa Lira Leite disse...

Eu também estou bem, Van! E que bom saber, que você esta bem! Beijo bem grande da Van

Joakim Antonio disse...

Existe sempre essa confusão, esse caos ordenado de todos nós, blindando de dentro para fora.

Beijo e ótima semana!

Anônimo disse...

cheguei as lagrimas,

Sandra Cajado disse...

Diante de tal ARTE eu me calo e absorvo.

Lindo!

Emocionante...

Maravilhoso texto!

Um beijo

Du disse...

Sei lá Van, nem sei o que dizer, só que me tocou profundamente e tu sabes porque... Já pode chorar? :( se quiser leia meu último texto no blog "eu te amei em todas as estações" Beijos n'alma

Eduardo P.L disse...

DIA 9 próximo vamos promover uma COLETIVA em homenagem a ROLANDO PALMA, nosso companheiro do ENTREMARES, e TERTÚLIA VIRTUAL. Participe e divulgue. Mais detalhes na Central de Relacionamento da TERTÚLIA VIRTUAL

http://tervirtual.blogspot.com/

 
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