MORTAL

Pode ser que não sobre ninguém em mim. 
Que essa coisa que se mexe, dia após dia, monotonia após monotonia, seja finda. Algo que acaba porque é tanto em tão pouco tempo. Intensidade mortal. Porque tudo que é exagerado deixa um vazio, um buraco, um vácuo que talvez nada preencha. Pode ser.
Pode ser que tu não me vejas, que nunca saiba das coisas que eu sonho ou do que serei quando estiver à beira do mundo. Que nunca conheças meus passos e o quanto eles são indecisos... nunca sabem dos caminhos corretos. Sempre cambaleantes. Incompletos.
Coisa mais mundana querer saber tudo. Nada sou, nada sei. É melhor aprender logo minha mortalidade, minha pele limítrofe, meu existir escasso e garatuja.
Pode ser que tu jamais saibas da minha fragilidade, posto que meti na cara essa tez de invencível. Entenda. No fundo eu sempre quis esconder os silêncios, o fel, a incompetência, os medos. Sim. Talvez tu não conheças meus medos ou as vontades imponderáveis que pratico quando a madrugada devora grotescamente o dia. Coisas que um dia deixarei de mim. Coisas que ninguém vê. Se reparar bem, é tudo a mesma coisa. Ninguém nos vê até que não mais existimos nessa vida. 
Deixo-me para o meu depois, então. Se ainda algum órgão vital sobrar, pulsando descompassadamente, nesse desastre caótico que chamo de corpo... Se depois de tudo ainda me houver em mim, deixo-me. 
Porque por hora, nessa vida, no agora, sou só uns rabiscos desentendidos, cuspidos em papel, madeira, vento ou onda. Ao menos um caminho até o que chamo de mim.
Mal me conheço. Mal sou. Existo? Pode ser.
Ou pode ser que eu apenas exista plenamente logo depois do fim, pra depois da solidão, bem pra lá de mim.
Pode ser.

Van Luchiari © 

*Texto registrado na Biblioteca Nacional.Todos os direitos reservados.
MORTAL© by Van Luchiari is licensed under a Creative Commons 
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24 MIL RECADINHOS:

Moska de Bar disse...

Belo texto. Acho que a melancolia vem exatamente daquilo que está à frente do espelho, seja imaginário ou não. O importante é a enorme interrogação que nos move e faz querer ver além das circunstâncias. O cotidiano pode ser paracedi. Nunca igual. Te beijo!

Moska de Bar disse...

Paracedi, leia-se "parecido"...rs

EAD/JOYCE disse...

Amo seus textos, tocam fundo, amiga. beijos

glória disse...

A Vanluchi é avalanche de sentimentos esculpidos pelo talento e maestria. A poeta-escritora é também uma bela cantante.

bjs

giselle disse...

Como sempre,

in-quietas letras de Van Luchiari...lindo texto!

Bjs,

Gi

Patrícia Lage disse...

Amoreca,

Você eu torço para que possa ser sempe.

;)
Meu beijo.

Taís Santana disse...

Difícil você ser lembrada apenas depois que deixar de existir.
Seus escritos são verdadeiros testamentos,que,em vida, você dá privilégio de uma simples mortal feito eu ,de poder usufruir,sem mesmo ser da família de sangue,apenas por adoção através do encanto pela poesia que comungamos.
Suas mensagens são herança dessa rica essência que é você e que será sempre lembrada agora e por toda a eternidade.
Abraços carinhosos
Taís Santana

isabel maria disse...

Somos um corpo que alberga uma alma.O seu texto está fantástico e expressa o que me vai muitas vezes na minha cabeça.
:)

Denison Mendes disse...

o que direi eu? simples mortal diante da imortalidade do belo?
beijos

Anne Caparelli disse...

Mais um texto lindo que nos é oferecido...perfeita!

BjOs!~

tita coelho disse...

Gostei muito do contexto, Van! Tuas letras borbulham e inspiram a escrever!
Beijos, guria ;)

Ava disse...

Meu Deus! Seus textos explodem dentro da gente, jogando estilhaços de sentimentos para todos os lados!

Barbaramento belo e sensível...

Beijos!

Keila Costa disse...

Belo esse Pode ser...que é sempre ele mesmo que vale nessa incompletude humana...abraços

Keila Costa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Manuel Pintor disse...

Pode ser
Que tudo quanto ora sou
Nada mais seja
Que o verso e o inverso
De um holograma incompleto de mim
E nessa amplitude da minha mortalidade
Nesse rabisco do caminho em que me faço e tropeço
Sobre, agora, o meu depois
Etéreo, ainda mistério,
Eu vital de que nada sei
Talvez...

Obrigado pela beleza e profundidade do texto, Van.
Um privilégio lê-lo, Filósofa!

Flávia disse...

Pode ser.

E, na maioria das vezes, o é - e a gente nem se dá conta.

Amor em forma de beijo.

Felipe Carriço disse...

Pode ser que não haja final.

"Existe vida após o ponto final?", perguntaram-se as letras.

COISAS DE LILI disse...

Estava eu passeando pelo infinito mundo do www e derrepente acesso um blog...Ops um BLOG gente, não qualquer BLOG. Esse é o BLOG, estou até agora perplexa com todos esses textos maravilhosos!!! Mas vou confessar que o Secret Love ganhou meu coração disparadamente! Nossa Parabéns viu! Muito bom! Ganhei o dia e a sexta!

Anônimo disse...

cada dia mais g-o-s-t-o-s-a a sua poesia, linda!!!!

bjukas
(pra ti e pra bela Flavinha, maezinha do Samuca)

Giardia disse...

palavras tão doces.
E que Deus nos guie sempre para caminhos de luz.
Desejo pra você muita inspiraçao e publico bom.
Beijão

Anônimo disse...

pro fun do!!!

bjkas!

Gabriel disse...

oPA vAN....QUE LEgal voltar a te ler...mas por onde andas? abandonastes este seu porto? Nao faça isso...voltando a te ler vejo que a escrita continua densa e extrema...saudades...dos aureos tempos de blog...

Van disse...

GABRIEL
Oi, querido. Não é um abandono total. É só um quase-abandono. Fico agora no facebook e no twitter. Lancei livro, ano passado, pela Editora Novitas. Continuo fulltime online, mas escrevo e compartilho muito mais nas redes sociais, já que os blogs estão em baixa e quase não há mais leitores assíduos para eles. Tenho saudade da época boa dos blogs. Mas venho vez em quando deixar meus escritos registrados aqui.
Apareça nos meus perfis sociais se quiser.

Facebook:
www.facebook.com/vanluchiari
Twitter: @vanluchi

Beijucas ;)

Adão Flehr disse...

Van,

A dor é combustivel da alma. Belíssimo texto.

Um beijo grande

 
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