AO MEU PAI


Um dia, um mês, um ano, cinco anos... Quando será que a gente para de contar o tempo?
Talvez quando descobrimos que algumas saudades são eternas.




Foi meu pai que me ensinou a pescar. Meu pai era um pescador. 
Pescador de sonhos, pescador de ilusões, pescador de alegrias. Ele pescava como ninguém. Pescava honestidade, bondade, talentos. Era um pescador generoso. Dava quanta linha fosse preciso para que a luta fosse justa. Meu pai pescava justiça. Era pescador de iscas poderosas e mãos firmes. 
Foi meu pai que me ensinou a pescar. Desde que me conheço por gente, ali estava ele com seus olhos verdes imensos, pronto pras lições que eu teria que aprender. Pronto para segurar comigo a vara quando algum peixe maior quisesse me derrubar. Meu pai. Pescador de si mesmo. 
Ele era galã. Ele era galante. Ele era cri-cri, teimoso, vaidoso, orgulhoso. Um pescador-pavão. Ele era admirado por todos. Ajudava a uma infinidade de pessoas que cruzavam o mesmo rio, no mesmo barco com ele. Preocupado em ser sempre correto... e bonito. 
Meu pai era um pescador. Pescava melodias com sua gaita esquecida e rara. Pescava sorte, pescava jardins bem cuidados. Pescava pérolas, pescava tesouros. 
Pescava e cozinhava os peixes em temperos perfeitos, que a criançada comia com as mãos. A criança em mim ainda sente o sabor das comidas dele. 
Meu pai pescava sobrevivência. Pescava risadas, palavras, pescava conhecimentos. 
Era um homem inteligente e sábio o meu pai-pescador. 
Foi meu pai que me ensinou a pescar. Pescar nos rios da vida ou vida nos rios. 
Hoje, ele não está mais aqui. Foi pescar em outros rios, em águas mais puras e profundas. Foi fisgar outros peixes. 
Há anos ele se foi... 
Meu pai, no fundo era também o próprio peixe, lutando pela vida com ferocidade. 
Lutou até o fim, bravamente. 
Meu pai. Pescador de si mesmo!

Para a saudade que não passa, eu deixo o meu canto.
Pai, cante comigo, de onde estiver!



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Dança da Solidão - Paulinho da Viola
Performed by
Van Luchiari
Violão: Zé da Conceição / Percussão: Rodrigo Scowa /
Baixo e Teclados: Daniel Si! / Samplers: João Parahyba
 

Van Luchiari ©
*Texto registrado na Biblioteca Nacional. Todos os direitos reservados ©  
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18 MIL RECADINHOS:

Raphael Inacio disse...

Poxa, poetisa. Estive procurando algo pra falar sobre meu pai. E neste texto encontrei exatamente como vejo meu caríssimo pai. Ele é um pescador também, sabe pescar o bom no mar de almas atormentadas.

Obrigado por me fazer certificar que meu pai não é o único pescador neste mundo. Pois se houvesse mais pescadores com eles o mundo estaria melhor habitável.


Beijos, poetisa.

Diz disse...

Que lindo isto. Comovente e bonito.
Que pena q ele se foi tão cedo... aomesmo tempo, que bom que te ensinou a pescar.
Bjs Laura

Sérgio Luyz Rocha disse...

Oi,Van, como vai?
Pois então, meu pai também há muito que foi respirar outros ares, ou mares? Ele era mar, mar aberto que se deixava navegar...
Bons pescadores são amigos das águas doces e salgadas, o que me lav a acreditar que são amigos esses nossos pais.

Texto lindo e comovente...

Beijos!

Márcio Ahimsa disse...

Puxa Van, que legal que és descendente de um peixe salmão, e entre a isca e o anzol, sobe a correnteza ladeira acima para pescar a vida...

Bela homenagem.

Letícia Losekann Coelho disse...

Poxa, fiquei sem fôlego! Disparado um dos textos que mais mexeu comigo.
Sei da tua ligação com teu pai e o quanto tu ama ele. Isso é além da vida... O amor de vocês é tão grande que pode ser sentido no texto!
Beijos, guria linda ;)

Anônimo disse...

Van,ao ler mais um dos teus textos lindos e pulsantes me lembrei de um livro que li ha muito tempo O velho e o mar.O pescador na sua luta feroz contra o peixe e pela vida.E u confesso: o teu pai tocou nos meus afetos,ele devia ser uma pessoa linda,devia nao ,continua sendo ,agora em outra dimensão.bjos querida

Jairo Cerqueira disse...

Maravilhoso o seu texto, emocionante a visão que vc tem do seu pai.
Também tive esse privilégio, meu pai foi super importante na minha formação.
Um abraço.

Ana Marques disse...

O meu pai ainda pesca por aqui e ler sobre o teu... deu uma saudade do meu.

Lindo texto, Van!

beijo.

Daniele Cezar disse...

ah, os pais! a gente sempre acha que eles são eternos.

[e, de certa forma, são.]

lindo texto, Van.

beijocas.

Geraldo Pinho disse...

A mais tocante das homenagens! Pensei nas paisagens de Montana, do filme "A river runs through it" de Robert Redford. Pura emoção!

Troll disse...

Quem nos ensina a tirar algo da água para a vida, não é mesmo? Principalmente as lições que precisamos pescar.

Felipe Carriço disse...

Tenho certeza que Deus pescou um peixe grande.

F. Otavio M. Silva disse...

Adorei o Post, Parabens; Vou vir mais vezes por aqui.
Dá um passada no meu blog quando puder.
http://otaviomsilva.blogspot.com/
¬¬°ºoO
Forte Abraço

Anônimo disse...

Lindo, profundo, maneira mais bonita de demonstrar Amor.....:)
Gosto muito do seu Blog.

Parabéns

Toninho Moura disse...

Seu Pai colocou você no mundo. E a saudade que tem dele é equivalente ao orgulho que ele - onde estiver - sente por você.

Anônimo disse...

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Ricardo Valente disse...

Gogó afinadinho... tão bom de ouvir!
Saudade...
Abraço!

Joakim Antonio disse...

Eu prezo muito quem também preza seu começo. Somo a soma deles.

Parabéns a ele que lhe ensinou pescar palavras.

Muito lindo Van!

Parabéns!

 
©2009 VAN FILOSOFIA! | by Van Luchiari