P.S.: RITORNELO ©



*Passarei a enviar cartas a mim mesma como uma forma de escapar da solidão... e as lerei, demoradamente, em tardes chuvosas, como se fossem elas uma novidade no meu corpo. Um deslumbramento daqueles que só se sente antes de abrir uma carta, o coração disparado de encantos no peito. Os dedos trêmulos tateando o papel como se ele fosse feito de nuvem ou de uma pele mais fina que o tempo:
Oi...
Eu sabia que tu lerias cada letra como se fosse uma vida toda esperando para nascer em ti. ... Quis te escrever para saber de ti mesma a quantas anda o teu projeto de existir. Se tu te tornaste realmente tudo aquilo que um dia sonhou enquanto rompia o casulo da vida. Não sei se foram fáceis para ti os caminhos. Creio que não. Eles são sempre mais difíceis para quem, assim como tu, acha que é inquebrável. Parecem dizer: quanto maior a alma, maior a luta. E dá-lhe vontade para tanto caminho a percorrer até que eles tornem-se macios. Sei o quanto tu plantaste para colher essas pequenas e diárias delicadezas. Essas que te salvam do teu abismo. Sei também que o espelho nunca te foi algo tranquilo. Tinha sempre algo de já trincado, deformando tua já embaçada visão. Uma imagem partida desse inteiro que és. E tu só querendo ser um pedaço de tudo. O avesso. Gostavas dos avessos, lembra? Nunca mais depois de ti, conheci quem gostasse tanto do lado contrário do mundo e das coisas. Dizias que o inverso é o que guarda as verdades com as quais tu compões teus deslumbramentos. E para ser sincera, nunca entendi realmente o que isso significava. Então, por ti, fiz-me um silêncio... um silêncio majestoso. Um silêncio daqueles que entendem sem precisar de anuência. Entendem porque são. Como eu sou-te. Sabes bem que sou-te. Indefectível e indubitavelmente.
Eu sei. Devia ter escrito mais. Devia ter devassado as gavetas e as fendas das portas com mais frequência. Não ter me distanciado tanto do que tu precisavas: ser-te só que com mais cores, mais coragem ou quem sabe mais suavidade. Eu sei. Devia ter estado mais perto quando o chão te faltou ou quando tu arriscou ter asas. Eu sei. Por tantas vezes fui o brilho em pó dos teus passos e em tantas outras fui a tempestade dentro dos teus olhos. Sempre, sempre em ti. 
E eu só queria que tu soubesses, ao terminar esta missiva, que sou só o teu recomeço, como sempre fui, inúmeras e infinitas vezes. E que mesmo agora, nesse interlúdio de alegria, serei sempre um sorriso à espera, um sol em alguma fresta, sempre um caminho cintilante indicando o destino, uma direção, uma voz, um desejo...
Jamais serás só.
                                                                                                                  Com Amor,
                                                                                                                                 V.
Abra todas as cartas.




Van Luchiari © 
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23 MIL RECADINHOS:

Alisson da Hora disse...

Solidão, palavras, vida...

E a gente se enche de vida, aqui...

beijos

..::denise::.. disse...

Van... palavras que enchem o coração... que prazer!
Bjokaz

Camila Passatuto disse...

No começo... esse lance de cartas me fez lembrar um conto do Loyola Brandão, em que a personagem mandava cartas para ela mesma...

Enfim, o texto é lindo, emociona... parece uma conversa da sua alma com o que és. Sei lá se há diferença entre ambas, se há hierarquia de ser...só sei que emocionou e adorei te ler.

Beijos.

ludinizbarros disse...

texto carregado de sensibilidade.
Passeio na sua emoção, muito gostoso sentir suas palavras. bjus de luz e paz!

Juca Ajamil disse...

"Um deslumbramento daqueles que só se sente antes de abrir uma carta, o coração disparado de encantos no peito."

Tenho guardadas cartas de amores adolescentes que hoje lerei para matar a saudade desse deslumbramento.
E se o atual jejum de cartas persistir, copiarei seu gesto e enviarei declarações de amor a mim mesmo. Porque às vezes nos esquecemos que amar a si mesmo é o primeiro passo para ser amado por outros.

Van, obrigado por mais um texto de encher os olhos e massagear a alma!
BeiJus!

Ava disse...

Realmente de enchar a alma...

A quantas anda nossa solidão e quanto sabemos de nós?

Voce me deixa com um belo questionamento.

Me deu vontade de me escrever, pra saber da minha vida.

Beijos e parabéns por tão bela escrita...

Josy disse...

Decifraste-me assim como um suspiro revela a dor que sinto.

Disseste-me como quem partilha d'alma de uma irmã.

Amei-te sempre, prossegui te admirando. Hoje, sou tua aprendiz.

Sorri menina, que o sorriso te cativa... Beijos

Taís Santana disse...

Querida Van Luchiari...
Creio que as cartas escritas a nós mesmos,nos leva a ver o quanto nos fazemos falta de vez em quando,mesmo quando a gente tenta fugir do barulho ensurdecedor que faz o silêncio da solidão.
Mesmo quando ainda não nos acostumamos com nossa própria companhia.
Das cartas escritas a nós mesmos,o melhor de tudo é quando se é correspondido.
Quando se gosta do autor de cada linha,quando a leitura de si mesmo passa a ser mais prazerosa e a gente passa a gostar da pessoa que as escreve.
Linda,linda,linda essa sua mensagem...uma verdadeira releitura do que somos.
Aliás,já é sabedora do quanto aprecio seus ricos escritos.Você tem o dom de deixar a alma falar na ponta dos dedos.
Sou fã.
Com minha admiração e todo o meu carinho
Taís Santana

Mariana disse...

Corri pro meu baú...quase chegou a chover na madrugada morna que se arrasta;as cartas que escrevei pra mim aos 13,aos 15,aos 20,aos 30 e por aí seestenderam por uma década ainda guardam a mesma sensação de hoje.
Seu nome é emoção,Van.E ela se propaga aqui em forma de letras.beijo de agradecer eterno.
*Vou ali escrever a dos 45 e volto logo.

Otimos disse...

Belo e carismático texto... fraterno...
escrever para si mesmo é quase uma lei: todos fazemos, ou fazíamos, ou fizemos -rsrsrs

A solidão também... somos sós sempre embora o sentimento de solitude nem sempre nos abrace como a sombra da noite...
não é nada preciso e constante a melancolia da solidão, pode, sim, nos ser um grande alento

Tays Rocha disse...

Além de sempre ser um prazer te ler, pelo talento, pela sensibilidade, pensamentos bem estruturados e escrita impecável... vejo aqui um excelente exercício e fiquei com vontade de praticar da mesma forma, embora tenha diários, virtuais e reais, isso de escrever prá si mesma e poder reavaliar futuramente é uma catarse positiva e depuradora. Nunca me decepciono em vir aqui, estava com saudades. Beijocas amiga ♥

Tristan disse...

Eu "aprendi" a escrever pra mim mesmo lendo Calvin, porque ele tinha essa mania.

Sempre quis tentar isso de forma mais "física" (usando o correio mesmo e tal).

Te ler é sempre inspirador, e mesmo quando és tão densa e profunda (sim, eu sou redundante), exalas um escrever fácil, fluido e belo. Tenho vontade de literalmente me alimentar de tuas balavras para quem sabe, ao digeri-las, quem sabe eu possa chegar perto de algo como o que tu prodiz.

Beijos todos, aqui de onde brilham as estrelas.

Anônimo disse...

as vezes tambem penso em mandar cartas para mim,afinal nós precisamos nos amar primeiro.

lindo texto,van !

beijos

@ken_paulosergio


(twitter)

EAD/JOYCE disse...

Amo seu lirismo e sua vontade de falar das coisas mais preciosas, bjs, amiga.

Manuel Pintor disse...

Só queria te dizer
que sempre te fui
no mesmo lado do espelho
Que me fiz árvore quando trepaste
Que me estendi asas quando voaste
Fui chama quando te deslumbraste
E caíste em mim quando tropeçaste
Sempre tentei amaciar
os mais duros caminhos que sempre escolheste
Sempre te fui a descoberta
que em ti procuraste
Nunca encontrei para ti
a sabedoria da vida, em ti perdida
Mas sempre fui pedaço que te fez inteiro
Sempre fui teu chão
teu sol na solidão
E sempre meu silêncio foi
Dar-te e ser-te palavra
na alma sonho que somos

Flávia Braun disse...

Van querida!
Que coisa linda, que conversa linda contigo mesma...
Quantas e quantas vezes conversamos conosco, e sempre tão difícil definirmos, não ? pelo menos pra mim... Difícil olhar no espelho e saber se realmente a alma está feliz...
quantas e quantas cartas gostaria de escrever a mim mesma, como um ato de desabafo, de resgate, de auto-conhecimento.
bem que fazes; só nós mesmos pra mantermos um contato tão íntimo com nosso íntimo...
beijos, poetisa linda!
adoro-te!
Flávia

P.S.: um dia me dá a honra de uma passagem em meu blog? Tua opinião é IMPORTANTÍSSIMA!

bjs no core!

Sara disse...

Amo, amei, ler-te é sempre um prazer... vou partilhar para contribuir com a minha parte até o mundo inteiro te conhecer

Tatiana Kielberman disse...

Van, querida...

Sempre te aprecio, de perto ou de longe, e sou verdadeira fã de tudo o que você escreve!

Lindo, verdadeiro e tocante demais!!

Parabéns por tamanha sensibilidade... seu blog já virou um dos meus cantos prediletos!

Beeeeijos!

Du disse...

Eu me li na tua carta Van, com lágrimas e tudo... ainda bem que o coração regenera, né não?
Obrigda pela força, obrigada por tuas palavras!

Beijo de carinho

Barbara C disse...

E quem melhor do que nos para conhecer nos mesmos? O profundo, o intenso,somos aprendizes de nos mesmos.

Carta linda!


beijos Van.

drluiz disse...

Lendo sua carta de repente senti - me invadido por um misto de nostalgia e deslumbramento, porque viajei para dentro de mim mesmo e me peguei espiando - me na imagem refletida no espelho ...
Grande beijo

@DRLUIZAUGUSTO_

Anônimo disse...
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