RESPOSTA AO AMIGO DISTANTE - DAS SAUDADES PATERNAS



 Seu filho da mãe...! 

 Chorei feito uma carpideira com teu texto, com teu Quincas, tão de repente presente, pelas tuas palavras. Chorei com a nossa perda tão parecida de pais tão iguais que tivemos. Você sabe como eles eram parecidos os nossos pais. Até amigos eram, os danados. Cresceram juntos, em caráter e estatura. Chorei. Chorei porque é linda a saudade. E você tem razão. É mesmo a piada definitiva, a saudade. E como nós sempre estamos conectados de um jeito ou de outro, só pra constar, hoje mesmo escrevi uma frase assim: "A vida vai esvaziando a gente das gentes que nos preenchiam." 

  A morte é a maior piada de Deus. Pra quem vai, não. Pra quem fica. Buraco impreenchível. Jamais haverá Sol ou Gente ou Palavra ou Carinho ou Piada que preencha o espaço da falta que fazem os nossos Eus mais antigos - nossos pais. Ficamos nós, néscios, decifrando os silêncios, as alças de caixão vazias das nossas mãos, os caminhos não percorridos até os encontros, os difíceis encontros com os fins, o riso que não virá mais e o riso que vem sem avisar, distraído, nos fios invisíveis da memória. 

 Quincas riria. Nossos pais também. Porque eu tenho absoluta certeza de que a única coisa que nos torna mais leves é a morte. Morrer é libertar-se dos pesos dos nossos próprios caixões, das nossas mortes diárias. Portanto, eles estão lá, nossos pais, flutuando, leves... rindo e pregando peças no tempo, no destino. Quem sabe um dia eles voltem a nós assim, discretos, brincalhões, disfarçados de ironia em algum canto da nossa vida. Acho que já estão aqui, nos sorrisos que damos sem perceber. Presenças etéreas. 

 Eu não contei antes, mas meu pai veio me ver uma noite dessas. Estava nitidamente confuso, buscando talvez a mim, aqueles olhos verdes enormes e brilhantes me procuravam e eu, chorando, alcancei-lhe o rosto e acariciei-lhe a pele, a textura áspera da barba... foi como viver de novo. Ele me disse algumas coisas, balbuciou alguns carinhos, acho. Não me lembro bem. Você sabe como são os encontros dentro dos sonhos... Mas não importam palavras porque eu senti cada letra, gesto, olhar. Ele tinha um sorriso. Tímido sorriso. Eu o abracei com a intenção de ser corda ou corrente ou eternidade, mas no fundo eu sabia: não se prende uma vontade. Eu ia acordar em breve, embora meu coração ainda quisesse ficar preso àquele sonho por sabe lá quanto tempo. (O tempo onírico também é implacável). Sei que eu chorei. Acordei chorando, como na velha canção dos Paralamas. Assim como chorei ao te ler, hoje. Veja só! Até nas memórias e até na saudade, somos iguais. Tão parecidos quanto foram os nossos pais. 

 Nós seguramos, sim, as alças dos nossos pais. Pela vida. As alças de dentro, que nos ligam a eles pelo lado atemporal do tempo. E continuamos segurando-as, em cada lembrança, em cada anedota ou fotografia ou lágrima ou cansaço. Eles sempre estarão em nós, porque não dá pra fugir da falta que eles fazem. A saudade não é só uma anedota. Não é só uma alça. A saudade é um grilhão. E estaremos presos a ela, para sempre. Até que nós mesmos nos tornemos a própria saudade. 

 Por falar nisso. Ela acaba de doer aqui. 

 Amor, 
 V. 



Van Luchiari ©
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RESPOSTA AO AMIGO DISTANTE - DAS SAUDADES PATERNAS© by Van Luchiari 
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 (Arte: Kymia Nawabi)

7 MIL RECADINHOS:

Ridiculous thoughts disse...

Nossa... indubitavelmente, este é o texto mais comovente que li até hoje sobre o tema. Que belo tributo!

Van disse...

Muito obrigada. ;)

Van disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vives disse...

Excelente!!!

Van disse...

Muito obrigada, Vives. ;)

Dulce Miller disse...

Van querida, que o Natal seja mais um momento em que todas as pessoas acreditem que vale a pena viver um Ano Novo. Boas festas, abraços de muita luz e paz! :)

Edson Marques disse...

Flores e estrelas...

 
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