"Porque meu coração é uma ilha... A centenas de milhas daqui." (Djavan)


Stuck in a Moment - U2

Eu sei que um dia eu voltarei para mim.

Para aquela imagem que o espelho costumava refletir antes de se quebrar com o peso dos teus erros. Aquela que eu costumava achar linda e forte. Aquela que tinha olhos brilhantes, vivos...
Eu sei que um dia eu encontrarei o caminho de volta. De volta para o que eu era antes de conhecer o teu abismo, a tua frieza, a tua superficialidade.
Um dia os meus passos encontrarão o caminho. O início da estrada que me levará de volta ao meu sorriso, à minha vitalidade, à minha juventude, à minha credulidade em coisas como amor, verdade, justiça, fidelidade. Eu sei.
Porque em algum ponto eu deixei de acreditar no que era fundamental para mim. Deixei de acreditar que eu era merecedora dessas singelezas da vida. E duvidei que eu podia ter as gentilezas e os afagos do mundo em mim.
Duvidei que alguém como eu merecia amores que não machucassem, que não fizessem doer. Que alguém como eu merecia a bondade e os atos sem inveja, sem maldade, sem máscaras.

Simplesmente parei de crer que a vida me traria tudo o que eu um dia deixei plantado pelo caminho. Uma recompensa por tudo o que eu dei de mim às coisas todas. Porque de tanto me dar, parece, acabei vazia.
Fui tornando-me meu próprio oco. Fui esquecendo de como era o meu rosto, meus olhos, minha voz, a textura dos meus lábios, o cheiro dos meus cabelos, as linhas das minhas mãos... e de tanto acreditar em ti, fui desacreditando em mim, nas coisas que eu ainda tinha para dar e no quanto eu poderia ser melhor, se não houvesse a tua escuridão me assombrando, as tuas pesadas correntes me aprisionando, a tua aflição vampiresca sugando a vida que corria em minhas veias.
Ah! E quanta vida havia em mim! Quanta inspiração escorrendo pelos poros. Coisas que as tuas loucuras foram corroendo. E as maldades dos outros foram levando à exaustão. E sem perceber eu fui sendo apagada de mim pelas invisíveis armadilhas da tua imaturidade e da crueldade humana. Perfurada pelos grilhões enferrujados de um mundo todo torto, todo do avesso.
Vulnerável, protegida apenas pela verdade, tornei-me a inabitável solidão de não me ter.Desabitei meu corpo. Perdi-me das minhas tempestades. Adormeci os vulcões em mim.
Mas eu sei que eu ainda voltarei um dia. Voltarei para mim mesma. Para esse corpo-invólucro que acolhe tudo o que eu sinto e sou. Reencontrarei a imagem, a paz e a alegria crédula que perdi. Libertarei meu coração da tua âncora pesada e das tuas exigências.
Sim. Eu voltarei pra mim. Já vejo a luz na superfície de mim mesma vencendo as profundezas.
Já quase posso ouvir a minha própria voz sussurrando em minha alma:

"Bem vinda. Senti tua falta!"


*Texto registrado na Biblioteca Nacional.
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